"REGOZIJAI-VOS SEMPRE NO SENHOR; OUTRA VEZ DIGO, REGOZIJAI-VOS" [Fp 4.4]

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Todos esses anos... E nunca fica mais fácil


 




  Por Jorge Fernandes Isah 
  
Relendo o livro “Eleitos de Deus”, de R. C. Sproul [1], na página 50, deparei-me com um quadro baseado no pensamento de Agostinho, elaborado com o intuito de elucidar os quatro estágios do homem segundo a visão reformada da predestinação. Decidi portanto analisá-lo sinteticamente, sem abarcar todas as implicações e pormenores, o que não quer dizer que o fiz levianamente. 

 1) Antes da Queda

Sproul: O homem era capaz de pecar e capaz de não pecar. 

Eu: Não se vê na Bíblia nenhuma afirmação quanto a essa conjectura. Ela é mais fruto de uma premissa que justifique a Queda do ponto de vista humano, do que do ponto de vista da soberania de Deus; e uma tendência ou tentativa de "absolver", de "inocentar" Deus da Queda do homem, como se Ele precisasse de um advogado ou alguém que o defendesse (ao mesmo tempo em que O acusa), de não ser sábio e perfeito naquilo que fez sábia e perfeitamente. 

Ainda que a maioria dos calvinistas aceite a predestinação, o decreto eterno, e a Queda como partes integrantes do propósito divino, não aceitam a Sua ação efetiva e direta na Queda do homem.
Por isso se afirma, desde Agostinho, que Adão detinha o livre-arbítrio. Mas onde está escrito que ele o tinha? Tanto que à primeira tentação sofrida, cedeu e pecou; e a sua capacidade de não-pecar em nada lhe serviu e em nada o ajudou a se preservar do pecado. Se Adão tinha a capacidade de pecar ou não, por que ele escolheu justamente aquilo que não conhecia, e do qual nada sabia?

Afirmar a neutralidade de Adão quanto à possibilidade de escolha (e o livre-arbítrio pressupõe neutralidade de escolha, não estando ela sujeita a nenhuma coerção externa ou mesmo interna) é ir contra a lógica. A própria mentira da serpente, distorcendo uma ordem clara e expressa de Deus (e a ordem de Deus não é uma espécie de coerção?) demonstra que houve uma influência exterior, e de que essa influência foi acolhida no coração de Adão e, portanto, ele decidiu que aquilo que Deus havia dito era mentira, e de que aquilo que a serpente havia dito era verdade. 

Como ele conseguiu chegar a tal conclusão se sua escolha estava neutralizada pelo livre-arbítrio? Seria possível a Adão alguma escolha em meio à neutralidade? 

A neutralidade pressupõe a não-escolha. Se há neutralidade, como escolher? E se não havia o deliberado desejo de se rebelar contra Deus, como lhe foi possível desobedecê-lO? E não sabendo o que é o mal (que até então não havia no Éden), como Adão poderia escolhê-lo? Conhecendo apenas o bem, é possível escolher o mal que não se conhece?

A questão aqui não é de capacidade ou liberdade de escolha, mas do decreto eterno de Deus que fez com que Adão caísse, a fim de que se cumprisse toda a vontade divina. 

Adão não havia pecado, mas era necessário e inevitável que pecasse, pela vontade decretiva de Deus.


E foi o que aconteceu.


2)Depois da Queda

Sproul: O homem é capaz de pecar e incapaz de não pecar.

Eu: Esses conceitos são uma tentativa de se entender a ação do pecado na vida do crente e do não-crente. Contudo, muitos incrédulos escolhem não pecar, mesmo quando estão diante da opção de fazê-lo. Como explicar essa situação? O ímpio sempre pecará?


A meu ver, o livre-arbítrio ou a capacidade da vontade humana estarão sempre sujeitos à vontade decretiva divina e, portanto, jamais teremos escolhas livres, nem mesmo segundo a nossa natureza
[2].

O fato não é se temos ou não a capacidade de escolha, mas em que situação e circunstâncias nossas escolhas são livres. Livres de quem? De Deus? 

Muitos calvinistas [3] querem fugir é da idéia do determinismo, ou seja, como Deus pode decretar tudo no universo, inclusive os mais insignificantes e míseros eventos e pensamentos, se o homem é livre para escolher, seja qual for essa noção de liberdade, e mesmo que ela seja limitada pelo poder soberano de Deus?

Segundo o padrão 2, o ímpio jamais deixará de pecar, e a sua escolha será sempre para o pecado. Contudo, existe a diferença entre natureza e pecado. A natureza caída não pressupõe necessariamente como fim o pecado, ele encontra-se em um "estado pecaminoso", aquele estado em que o homem está em deliberada rebeldia a Deus, contudo, ainda sob o poder controlador de Deus, o qual ativamente age mesmo no ímpio, e assim, nem sempre ele será levado a pecar. Deus o usará muitas vezes para cumprir o propósito de não-pecar. Aí está o dilema.

Da mesma forma que ao regenerado não se pressupõe a capacidade de não-pecar totalmente. O seu estado saiu do "pecaminoso" para o "santo" ainda que ele cometa pecados, e a maioria das suas decisões sejam em favor do pecado.

O que temos aqui não é a liberdade da vontade humana, mas a liberdade divina de fazer com o homem o que bem quiser, e que fará com que réprobos escolham não pecar, e fará com que santos escolham pecar.

Logo, esse quadro é ainda uma tentativa de justificar a Queda, o estado natural do homem, e o estado regenerado do homem, a partir do próprio homem, e não de Deus.



3)Renascido ou Regenerado:

Sproul: O homem é capaz de pecar e capaz de não pecar.

Eu:  Em quais condições? De pecar estando livre de Deus? De não pecar estando livre de Deus? 


Novamente voltamos ao dilema dos itens 1 e 2.

Até que ponto o homem é livre de Deus para escolher pecar e não pecar?

Até que ponto Deus é soberano para fazer com que o homem peque e não peque?

Até que ponto o homem pode ser livre sem ferir a soberania de Deus?

Até que ponto Deus é soberano e o homem livre?

Até que ponto a natureza humana pode determinar o grau de liberdade do homem em relação a Deus? 

Ou estamos falando de conceitos que se opõem e se anulam? 

A questão é: 

a)Deus é soberano, 
 ou
b)O homem é livre; e Deus não é soberano, ou não existe.

  
4)Glorificado:

Sproul: O homem é capaz de não pecar e incapaz de pecar.

Eu: Finalmente um conceito bíblico. Este é o único em todo o quadro que tem o respaldo da Escritura, e que não implica em nenhuma bobagem como a liberdade de escolha do homem, seja pela neutralidade do livre-arbítrio ou parcialmente determinada por Deus.


Na eternidade não pecaremos porque o pecado não mais existirá, seremos iguais a Cristo, e impedidos de pecar. Não há aqui nenhum conceito embutido de liberdade do homem. Ou opção de escolha. Seremos assim porque Deus assim o quer, da mesma forma que os outros "estágios" do eleito também o são pela exclusiva vontade de Deus.

Se na glória não seremos "livres", por que o somos agora ou antes?


A liberdade é um desejo do homem, mas há de se entender que ela não pode deixar de prescindir a soberania de Deus. E, por conseguinte, a Sua glória. A Bíblia é clara em afirmar que Deus não abre mão da Sua glória, portanto, por que Ele criaria o homem com alguma liberdade? Apenas se Ele quisesse se ver livre de nós, como os deístas concluem, crendo num deus negligente, que pouco ou nada liga para a sua criação. Porém, esse não é o caso do Deus bíblico, que reina sobre o universo, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder [Hb 1.3].

Acontece que a liberdade existe, em princípio, para validar a responsabilidade do homem. Quer a maioria dos calvinistas queira ou não. Para se afirmar a responsabilidade não é preciso validá-la pela liberdade (como disse anteriormente, não importa o grau nem o estágio de liberdade, ela sempre significará livre de Deus).

A responsabilidade humana está diretamente ligada à autoridade divina, que estabeleceu a transgressão como pecado, e como conseqüência a punição e condenação pela infração cometida.

É simples. O homem é acusado e condenado não por ser livre para escolher, mas porque cometeu o delito, a infração, violando a Lei de Deus. Seja por vontade própria ou não; o que é irrelevante.

Isso é que faz do homem um pecador; isso é que o torna réu; isso é que o condenará, e o levará a receber o castigo eterno do próprio Deus. Nada além disso.

Portanto, tanto o conceito de liberdade, como o de responsabilidade atrelada à liberdade do homem, são falsos e antibíblicos.

Nota: [1]  O livro "Eleitos de Deus" é publicado pela Editora Cultura Cristã.
Veja todos os meus comentários ao livro AQUI 
[2] Não se pode usar aqui o conceito de “bem”, onde todo ímpio, mesmo quando realiza atos bons, ainda assim, fazem-nos com más intenções, porque não têm a motivação de glorificar a Deus. Misturar a capacidade de pecar ou não com esse conceito igualmente dúbio de que o incrédulo somente pecará porque não visa glorificar o Senhor, mesmo quando suas atitudes não conflitam com a Lei Moral, me parece forçado. O que está em discussão é a capacidade de escolha entre a opção de pecar, transgredindo uma ordem expressa de Deus, e não pecar, obedecendo a uma ordem expressa de Deus. Dizer que se peca mesmo sendo obediente, tendo-se em vista a motivação, é uma espécie de "embromez", que não subsiste pelo texto bíblico. O fato é que ímpios pecam e não pecam,  permanecendo ímpios mesmo quando não pecam. Outro fato é que santos pecam e não pecam,  permanecendo santos mesmo quando pecam. Mas nunca alheios à vontade de Deus, antes cumprindo-se rigorosamente tudo o que foi planejado por Ele, antes da fundação do mundo.
[3] Sou calvinista. Mas acho que além dos "Cinco pontos", o TULIP, muita coisa é dita com ares de sabedoria e temor quando, no fundo, não passa de uma visão humanista do Deus Todo-Poderoso.  Uma tentativa não-bíblica de se explicar algo bíblico à revelia da própria Bíblia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SOBRE AMOR E ÓDIO
















Por Jorge Fernandes Isah



Em virtude dos debates nos posts anteriores com o estimado e dileto irmão e amigo Natan de Oliveira, do blog Reflexões Reformadas, decidi-me, ao invés de respondê-lo na seção de comentários, fazê-lo em forma de artigos [1]. Em muitos detalhes concordamos, mas, no geral, há desacordo quanto às conclusões.


É preciso esclarecer que esta tentativa não explicará todos os pontos, nem mesmo é exaustiva, em decorrência da dificuldade do tema, e da minha própria incapacidade de compreendê-lo totalmente. Mas como a minha ignorância não é desculpa para não buscar entendimento no texto bíblico, oro ao Espírito Santo que me instrua naquilo que me é impossível compreender naturalmente, pois, “para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” [Mc 10.27].


Primeiramente, analisarei o texto apresentado de Efésios 2.3:

"Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne e dos pensamentos: e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também".


Ao que o Natan concluiu: “Assim neste primeiro exemplo acima, Deus sentia ira (ódio) por mim quando eu ainda não era nascido de novo, mas ao mesmo tempo sendo eu um escolhido seu desde a eternidade, era também ao mesmo tempo, fruto do seu amor salvífico, uma vez que ele já conduzia a história, inclusive o pecado, para me trazer salvação no tempo certo” [2].


Faz-se necessário analisar os termos:


1) Ódio: Inimizade perpétua [Sl 11.5, Ez 35.5]. Forte oposição ao amor [Lc 16.13, Jo 15.18-19]. Aversão intensa [Ml 1.3; Rm 9.13].


2) Ira: Furor, indignação [Jr 21.5, Lm 4.11, Ez 7.8, Jo 3.36, Rm 1.18, Ap 19.15]. Ato de castigar [Jr 30.14, 2Ts 1.9]. Vingança [Dt 32.35, Sl 58.10, Is 34.8, Rm 12.19]. Cólera [Sl 38.3, Na 1.6].


Aparentemente os conceitos de ódio e ira estão muito próximos. Ambos indicam uma oposição ao amor, mas nem sempre. O ódio me parece mais um estado, uma condição, do que um ato, uma emoção, como a ira tende-se a assemelhar.


A ira pode ser mesmo uma conseqüência do ódio, uma forma dele se manifestar, mas também pode se apresentar, a princípio, como decorrente do amor, na forma de disciplina, de correção.


O ódio estaria mais para uma espécie de aversão absoluta, algo duradouro e contínuo, ininterrupto. O ódio seria antagônico ao amor, enquanto a ira seria antagônica à tolerância, à indulgência. Por exemplo, a Bíblia afirma que o ódio de satanás por Deus não terá fim, assim como o ódio do ímpio por Cristo e Seu povo não terminará nem mesmo quando estiverem cumprindo a pena eterna no Inferno. Ao passo que, por exemplo, Paulo nos exorta a irar, e não pecar; para que “não se ponha o sol sobre a vossa ira” [Ef 4.26]; dando-nos a entender que a ira é momentânea, circunstancial, incidental, o que me leva à conclusão de que ódio e ira são matérias diferentes, ainda que possam se relacionar. É claro que estamos a falar da relação do homem e suas manifestações. Mas, e Deus? Como o ódio e a ira podem se relacionar com a Sua natureza, do ponto de vista bíblico?


1) Temos de entender que Deus não está no tempo; Ele age no tempo, e não segundo o tempo ou conforme o seu desenrolar, pois “conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” [At 15.18]; as quais são os frutos, o resultado da Sua santa vontade.

2) A imutabilidade de Deus jamais poderá implicar em incoerência, contradição, porque isso resultará na desordem do universo, e sabemos que "Deus não é Deus de confusão" [1Co 14.33].


Efésios 2 nos diz que:


1) Deus nos vivificou quando ainda estávamos mortos em ofensas e pecados [v.1]. 2) Éramos filhos da desobediência e andávamos no curso deste mundo, segundo satanás [v.2]. 3) Éramos filhos da ira por andarmos na carne, fazendo a sua vontade, como escravos do pecado [v.3]. 4) Novamente, o apóstolo afirma que aprouve a Deus nos vivificar juntamente com Cristo, por sua misericórdia, “pelo seu muito amor com que nos amou estando nós ainda mortos em nossas ofensas[v.4-5]. 5) Deus “nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” [v.6]. 6) Para mostrar a sua graça e benignidade para com os eleitos, nos séculos vindouros [v.7].


Paulo nos faz ver que há uma idéia de tempo, mas também uma idéia intemporal, que transcende o próprio tempo. Há a concepção de eternidade, de que as coisas na mente de Deus não se passam como nas nossas; de que Ele estabeleceu tudo muito antes do tempo existir; e de que, de fato, elas já existem porque acontecerão inevitável e inexoravelmente, não podendo ser frustradas nem impedidas por nada ou ninguém de ocorrerem.


É o que está dito: quando Deus nos vivificou com Cristo; nos ressuscitou juntamente com ele; nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo. O apóstolo não utilizou verbos no futuro, mas os utilizou no passado: vivificou, ressuscitou, assentou. O Senhor que não está contido no tempo, e que é o criador do tempo, já realizou todas essas coisas para com os eleitos, os Seus filhos adotivos, mesmo aqueles que sequer nasceram, e mesmo os que ainda terão seus pais e avós nascidos num futuro distante.


A obra de Cristo já está consumada eternamente, e podemos dizer que ela foi realizada eternamente, por causa da imutabilidade divina que não poderia ser alterada, nem tomaria outro rumo, mas culminaria infalivelmente no sacrifício do Senhor na cruz do Calvário. É o que Paulo assevera: “sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” [Rm 6.6].


Não há dúvidas de que a nossa salvação é eterna.


Porém Paulo se utiliza da linguagem temporal para indicar o estágio em que estávamos antes da conversão: éramos filhos da desobediência; filhos da ira; andávamos na carne, satisfazendo-a e a satanás; estávamos mortos em ofensas e pecados. Essa é a nossa condição no tempo, na nossa relação com o tempo, o pecado e o mundo [significando toda a criação divina]. Mas também indicando a forma maravilhosa como o Senhor nos resgatou da perdição e condenação.


Partindo-se deste texto bíblico é presumível que:

1) Deus odeia eternamente o pecado. 2) Deus odeia eternamente o pecador que nunca se arrependerá dos seus pecados, terá o coração endurecido, e jamais foi alvo da Sua graça salvadora. 3) O pecador não resgatado por Cristo será alvo da ira eterna de Deus, como conseqüência da Sua justiça, que pune o pecador por causa dos seus pecados, da sua desobediência, e da inimizade perpétua para com Deus. Porque Ele é justo e justificador apenas daquele que tem fé em Jesus [Rm 3.26].


Podemos ver que há diferença entre o ódio e a ira. A ira de Deus pode cair mesmo sobre o eleito, como um castigo, como uma indignação, como conseqüência do pecado, no tempo. Esse me parece o caso de Davi. Após adulterar com a mulher de Urias [2Sm 11.4], assassiná-lo [2Sm 11.14-17 (a perversão de Davi foi tamanha que o próprio Urias levou a sua sentença de morte ao comandante das tropas de Israel, Joabe)], e desposar Betseba [Sm 11.27]; alguns castigos sobrevieram-lhe da parte de Deus: 1) O seu filho, fruto do adultério com Betseba, morreu [2Sm 12.18]. 2) Amnon, filho de Davi, cometeu incesto com sua irmã, Tamar [2Sm 13.14]. 3) Absalão, filho de Davi, matou Amnon, seu irmão, por causa de Tamar, sua irmã [2Sm 13.29]. 4) Davi foi obrigado a fugir de Jerusalém, escapando da morte, por causa da rebelião de Absalão, seu filho [2Sm 15.16]. 5) Absalão possuiu, em afronta, todas as concubinas do seu pai, Davi, diante de todo o Israel [2Sm 16.22].


Outras coisas mais aconteceram a Davi como castigo por seus pecados, provavelmente a que mais lhe doeu o coração, foi ser impedido de construir o Templo. Todas como conseqüências do juízo de Deus sobre Davi, os quais foram profetizados por Natã: “Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste... Eis que suscitarei da tua própria casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres perante este sol... também o filho que te nasceu certamente morrerá” [2Sm 12.10, 11, 14].


O Senhor perdoou o pecado de Davi, contudo, a Sua ira disciplinadora, que tem como um dos objetivos o arrependimento e a santificação, permaneceu sobre ele na forma de castigo, de punição temporal [2Sm 12.13].


A minha conclusão é: 1) Ódio pode parecer com ira, mas são coisas diferentes. 2) O ódio de Deus pelo pecado e os pecadores recalcitrantes (os réprobos, irreconciliáveis) é eterno. 3) A ira de Deus sobre o pecado e os pecadores obstinados é eterna, e se manifestará plenamente no Dia da Ira, quando os réprobos forem lançados no Inferno juntamente com satanás e seus anjos. 4) A ira de Deus sobre os eleitos é temporal, no sentido de ser uma manifestação educativa, que o levará, primeiramente, à conversão, e, posteriormente, à santificação. 5) Portanto, Deus não ama e odeia ao mesmo tempo os réprobos, porque Ele apenas os odeia, e não os ama. 6) Deus não ama e odeia os eleitos, porque Ele apenas os ama, ainda que lance sobre nossas desobediências o justo castigo.


Fica ainda a questão da graça comum sobre os réprobos, que tentarei expor em outro post [3].


Apenas para não deixar passar em branco, acredito que a graça comum sobre os inimigos eternos de Deus se dá exatamente por sua misericórdia e amor para com os eleitos. Ou seja, os vasos da ira, preparados para a perdição, existem para que também Deus “desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” [Rm 9.22-23]. Eles existem para a glória de Deus, mas também para que o Seu amor, graça e misericórdia por nós ficasse notória, evidente.


Alguns exemplos que favorecem essa idéia: 1) Deus nos pede para orar pelos homens, reis e eminentes a fim de que “tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” [1Tm 2.1-2]. Isso quer dizer que, muito provavelmente, se Deus não operasse a restrição aos ímpios, os crentes seriam destruídos. 2) Os crentes serão beneficiados com o que é produzido pelos ímpios, como uma dádiva de Deus para os Seus filhos: a tecnologia, os avanços da medicina, os tribunais de justiça, a arte, etc; como a ação de Deus sobre os reprovados a fim de que pratiquem o bem para com os eleitos; porque toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto” [Tg 1.17].


Não é o que diz o Salmo 136? Deus feriu o Egito nos seus primogênitos; “porque a sua benignidade dura para sempre” [v.10]. Sendo que a sua benignidade era para com os egípcios ou para com Israel?


Porque “tirou a Israel do meio deles” [v.11]; e fez passar Israel pelo meio do Mar Vermelho, mas derrubou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho [v.13-15]; “aquele que feriu os grandes reis [v.17]; e matou reis famosos... Sion, rei dos amorreus... Ogue, rei de Basã... E deu a terra deles em herança a Israel seu servo; porque a sua benignidade dura para sempre” [v.17-22].


Não há dúvida de que os réprobos cumprem finalidades específicas. Como já disse, foram criados para manifestar a ira de Deus [Rm 2.4, 9.22], e para que fosse conhecido o Seu amor pelos eleitos, e a eles revelada a Sua graça e misericórdia, assim como a Sua glória.

De outra forma, por que Cristo diria: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” [Jo 15.13]?


Ou será que Ele morreu por todos como querem arminianos e universalistas?


Ou ao invés disso, “Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós” [Rm 5.8]?


Bem, essa é outra história...


Notas: [1]Pretendo responder às inquirições do Natan em três postagens distintas, a fim de que, tanto eu como ele, possamos pormenorizar nossas convicções. [2]Para ler todo o comentário do Natan click em Oliveira . [3]Quanto à utilização de Jo 3.36 como argumento para validar o amor e ódio simultâneos, não há a menor possibilidade, porque a questão debatida por João resume-se a relação entre fé e vida eterna, ou seja, aquele que crê em Cristo terá a vida eterna, e aquele que não crer em Cristo não terá a vida eterna, mas a ira de Deus permanece sobre ele. A ira de Deus está sobre aquele que não crê e que não terá a vida eterna, o réprobo. Portanto, ele não serve como argumento para a nossa disputa que é sobre amor e ódio, ainda que ela favoreça mais ao meu ponto de vista do que ao do Natan.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

BÍBLICO OU ANTIBÍBLICO?
















Por Jorge Fernandes Isah


Explorei em vários textos os argumentos bíblicos acerca do amor de Deus. Pode-se lê-los Aqui, Aqui, Aqui e Aqui, dentre outros. Mas muitos não se convenceram da não existência do amor genérico, nem de que os réprobos estão eternamente privados do amor divino. [1]
Para os que consideram indistintamente o amor de Deus por suas criaturas, pergunto-lhes:
1) Deus amou ou ainda ama satanás e os anjos caídos?
2) Se, em algum momento, Deus os amou, sendo um dos seus atributos a imutabilidade, como explicar que Ele agora os odeia? E, porque não lhes deu a chance de arrependimento ao invés de lançá-los, inexoravelmente, no lago de fogo? [2]
3) Ou será que, desde o princípio, os odiou assim como odiou a Esaú antes mesmo dele fazer o mal?

Podemos refletir da seguinte forma:
1) Se Deus amou ao diabo antes [quando ainda era um querubim de luz], e agora o odeia, tanto que criou o Inferno para ele e seus demônios, onde serão atormentados por toda a eternidade [há de se entender que Deus será Aquele que executará o castigo prometido a eles e aos pecadores inconversos], podemos afirmar seguramente que Deus é mutável. Contudo, esse ensino é antibíblico, e, em momento algum, é validado pelas Escrituras.
2) Ao passo que, se Deus, desde antes da fundação do mundo, criou satanás com o nítido propósito de ser o que ele é, a Sua ira já estava sobre ele [muito antes dele existir], então, podemos afirmar seguramente que Deus é imutável, conforme todo o ensinamento bíblico assevera.

O que nos leva às conclusões:
1) Crer na possibilidade de Deus mudar a Sua disposição mental, de ontem amar e hoje odiar ou vice-versa, implicará na descrença da Escritura ou, no mínimo, a deficiência em sua leitura. Quem assim considera a Deus está em oposição à Sua palavra [ainda que transparecendo certa piedade], e a sua atitude é antibíblica.
2) O que crê na imutabilidade divina tem a sua consciência norteada pelas Escrituras, portanto, ela é bíblica.
3) Todo aquele que apelar ao amor fora das Escrituras, o faz antibiblicamente.
4) O que se conformar ao ensino escriturístico do amor, o faz biblicamente.
5) Quem descartar o ódio divino como uma manifestação da Sua justiça e providência, age antibiblicamente.
6) Quem o aceitar como a manifestação da justiça e providência divinas, age biblicamente.

Resta-nos uma última pergunta:
Quem você é?
Um cristão bíblico?
Ou suas premissas são antibiblicas, calcadas no humanismo?

Notas: [1] Uma boa discussão sobre o assunto foi travada no Tempora Mores, postado pelo presbítero Solano Portela.
[2] Vejam bem, em momento algum, questiono ou questionei qualquer decisão de Deus. Compreendo a Sua soberania [o que implica na independência e liberdade completa em Suas decisões] como algo mais que legítimo, algo fundamental e indispensável à ordem do universo, como reflexo da Sua autoridade e poder sobre tudo e todos sem distinção, quer se aceite ou não. Chego a dizer que se Ele, em Seu poder, me destinasse ao fogo eterno, ainda assim eu aceitaria a decisão como fruto da Sua sabedoria, santidade, justiça, perfeição, e amor para com os eleitos.
Portanto, essas perguntas são voltadas exatamente para aqueles que, a despeito de certa reverência e piedade, vivem a questionar exatamente aquilo que Deus revelou e nos deu a conhecer na sua palavra. Aceito as Escrituras assim como Ele a revelou, como palavra santa, inspirada, infalível, inerrante; pelo convencimento e entendimento dados pelo Espírito Santo, os quais, ainda que não me aprazem como pecador, reconheço e amo-a como a fiel mensagem divina aos Seus filhos e herdeiros em Cristo.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

AMOR OU DESDÉM?
















Por Jorge Fernandes


Tem-se falado muito sobre amor ultimamente. Parece haver uma onda de amor, quase um modismo acidental, pode-se dizer. Haja vista ler definições para todos os gostos, especialmente as que vão de encontro ao coração impenitente e irregenerado. Uns acham que o amor de Deus torna-O completamente tolerante para com o pecado. Outros, que Deus não tolera o pecado, mas é permissivo com o iníquo. Há os que para justificar suas transgressões excluem o inferno e a possibilidade de punição divina. E mesmo aqueles que consideram o pecado como ficção, ou uma forma de opressão psíquica e social de domínio dos mais poderosos (seja lá o que isso representa. Fica a pergunta: a opressão do poder é também uma fantasia?). Por tabela, elimina-se o diabo e sua influência perversa, os quais passam a ser algo meramente simbólico, referindo-se a dualidade, àquilo que o homem ainda possui de mal em sua natureza [a contrapor-se ao bondoso], mas que será progressivamente extirpado com o passar de milhões de anos de processo evolutivo, físico e espiritual; o qual ninguém saberá ao certo se ocorrerá; e se ocorrer [apenas como hipótese improvável], em que resultará, face à incontrolabilidade naturalista?


Todas essas tentativas de explicar a natureza humana ou de justificá-la, resumem-se a:

1) O desprezo à soberania e santidade de Deus.

2) O medo da condenação.

3) O reflexo da carnalidade e impiedade inerentes à natureza humana.

4) A rebeldia insana em se fazer senhor de si mesmo, quando se é apenas um escravo aprisionado em suas amargas e imorais ilusões.

5) O desejo inconsciente de autodestruição.


Escrevi alguns textos sobre essas questões e não retornarei a eles. Quero ater-me a algo ainda não abordado especificamente [mesmo que tenha sido implicitado]: aquele que se entrega ao pecado ama? É possível amar e ainda assim pecar contra quem se diz ter afeição?


O amor pressupõe comprometimento, responsabilidade, empenho ao sujeito ou objeto amado. Não há lugar para o desleixo, a obstinação pelo erro, a queda reincidente e sistemática. Quem não ama é diligente, zeloso para com a ofensa, seja a Deus ou ao próximo. No Cristianismo, ele é um violador contumaz da Lei Moral. E se transgride a Lei Moral, é um sedicioso que incita ou participa da revolta contra Deus. Em relação ao próximo, está pouco se lixando à descrição de Paulo: “o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” [1Co 13.4-7- grifo meu].


Podemos dizer que esse é o padrão do amor cristão da maioria que se diz cristão? Isto nos leva a duas conclusões:

1) Paulo está errado ao definir o amor como o ato de não se buscar os seus interesses e, ainda por cima, sofrer por quem se ama.

2) Paulo está certo; e a maioria dos crentes não sabe o que é amar verdadeiramente.


Fiz um pequeno estudo sobre o amor de Deus, com base em Marcos 10.17-27, intitulado O Jovem Rico.


E quanto ao amor humano?


Novamente, Paulo nos diz: “não sejais sábios em vós mesmos” [Rm 12.16], o que vale dizer que não há sabedoria inerente ao homem, de que ele é um tolo por vocação, e tudo o que ele pode conceber como sábio provém de Deus. Parece estranho no mundo atual, que cultiva a auto-idolatria, esse tipo de afirmação. Bem como a que a precede: “não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes” [Rm 12.16]. É uma verdadeira antítese ao pensamento secular, o qual infelizmente encontra-se disseminado no seio da igreja. Numa época de extremo individualismo, egoísmo, megalomania, consumismo, exibicionismo, e isolamento, como podem os homens ser “fervorosos no espírito, servindo ao Senhor”? [Rm 12.11]. A resposta nos é dada um pouco antes também: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2].


Esquematizando o que foi dito, o amor implicará sempre em:

1) Não ser sábio em si mesmo, por que o homem jamais o será por conta própria, mas sábio em Deus.

2) Não ambicionar as coisas altas, mas acomodar, conformar-se às coisas humildes. Em última análise, humilhar-se diante de Deus e do próximo, não buscando os seus interesses.

3) Servir a Cristo com fervor no espírito; folgando, descansando nEle, a única verdade.

4) Conhecer a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, não se conformando a este mundo. Ou seja, obedecendo-O diligentemente, e não aos apelos da carne.


Fora desse escopo, qualquer sentimento que o homem tenha não será o verdadeiro amor. O exemplo máximo é o de Cristo. Sendo Deus, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz" [Cl 2.7-8].


Alguém pode dizer: mas ele é Deus, e Deus não pode pecar. Para Cristo foi fácil, só que não somos deuses.


É verdade, em parte. Cristo é Deus, mas também homem. A Bíblia é farta em asseverar a dupla natureza do Senhor. Então, não creio que as coisas tenham sido facilitadas para Ele cumprir a Sua missão. O fato é que Cristo foi tentado e não pecou, nem se achou algum pecado nEle; “porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” [Hb 4.15].


Não entrarei na doutrina da dupla natureza do Senhor. Mas posso afirmar categoricamente que as tentações pelas quais Ele passou não foram de brincadeirinha, nem se armou um teatro com o fim de nos ludibriar; senão, como Cristo poderia se compadecer das nossas fraquezas, derramando Sua graça e misericórdia, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno? [Hb 4.16].


O certo é que Jesus não pecou por ser Deus, mas também por que nos amou, sendo Ele a fonte do amor perfeito, santo e pleno.


Apenas sintetizando o conceito de amor divino: Deus ama os eleitos, os escolhidos, os quais predestinou para serem o Seu povo, e serem conformados à imagem do Seu Filho Amado. Quando digo que Cristo amou, amou exclusivamente os Seus, os que lhe foram dados pelo Pai, os quais nada nem ninguém arrebatará das Suas mãos [Jo 10.28-29].


Algumas considerações sobre Jesus como o Messias:

1) Sendo Deus, tomou a forma de servo, fazendo-se como os homens.

2) Como homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente a Deus Pai até a morte.

3) Sua morte foi para satisfazer a justiça de Deus, mas também por amor aos Seus escolhidos.

4) Cristo conhecia [e conhece] a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, conformando-se a ela.

5) A sua obediência reflete o Seu amor ao Pai como aos eleitos.


Logo, o amor do Senhor Jesus pelo Pai e pela Igreja também O impediu de pecar. A tentação que lhe sobreveio não foi suficiente para gerar o pecado; pelo contrário, ele foi bloqueado pelo amor e impedido de se consumar, pois a tentação dissolveu-se antes que a concupiscência pudesse conceber-se, e ela não nascendo, não gerou o pecado nem a morte, a separação de Deus [Tg 1.13-15]. Cristo jamais foi atraído e enganado pela concupiscência, por isso, não pecou, porque é a plenitude do amor. O apetite ou desejo desordenado somente aflorará se naquele solo não houver amor, o antídoto ao veneno em todas as suas formas nocivas de impiedade. Do contrário, se o solo for estéril, sem amor, estará pronto para produzir o pecado, e a dissolução tornar-se-á apenas um vício renitente, insalubre e incurável. Onde há o amor de Deus não há chance para o pecado, sua semente maligna não germinará; antes, permanecendo no Seu amor, daremos frutos para a Sua glória [Jo 15.8-9].


Assim, aquele que ama não peca, nem se compraz na transgressão, nem quer justificá-la com um pretenso amor alheio à natureza de Deus, e que simplesmente é a corrupção da mente humana, desejosa em acomodar-se ao pecado. Desta forma, o crente tem de apresentar o seu corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, mortificando o pecado.


O que nos leva de volta à pergunta inicial: o homem pode amar?


Amor verdadeiro, aquele que procede de Deus, somente o crente tem. O homem natural desconhece-o, e está impedido de tê-lo. Mas isso não quer dizer que o crente amará o tempo todo. Experimentaremos o amor verdadeiro e duradouro na eternidade, onde o pecado não existirá, e não haverá espaço para a afeição desordenada. Lá, seremos semelhantes a Cristo, desfrutando da mesma natureza santa. Enquanto estamos neste mundo, vivenciaremos momentos de amor em menor escala, e de não-amor em maior escala. Mas sempre que amarmos, venceremos o pecado, porque o amor é a negação do pecado; é resisti-lo, não permitindo que domine sobre nós.


Por isso, é impossível o amor verdadeiro aos que não se arrependeram de suas iniqüidades e que vivem a fundamentá-las no anti-amor, o sentimento pernicioso e confuso, o "amor" deletério, o qual apenas servirá para afastar a hipótese de regeneração, ao manter o iníquo desligado de qualquer possibilidade de comunhão com Deus.


Ao tentar esconder-se, na verdade se expõe em sua tola rebeldia.


Como o Senhor nos disse: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor... Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” [Jo 15.10,14].


Onde há desobediência, abunda o engano e o pecado.


Onde há desobediência, não há amor.


E se não há amor, não se conhece a Deus, nem dEle é conhecido [1Co 8.3].



terça-feira, 13 de outubro de 2009

NÃO DESPERDICE O SEU ASSALTO













Por Jorge Fernandes



Sábado, fui assaltado.


Não, não foi por extorsão de alguma operadora de celulares. Nem pelo plano de saúde. Muito menos pelo "Leão". Não houve aumento das tarifas públicas na cidade, nem me venderam 100 pelo preço de 200. O gás continua com mesmo valor do mês passado, e a tv a cabo não me cobrou o ponto adicional, porque não tenho tv a cabo.


Foi assalto mesmo. À mão armada.


Estava em meu trabalho quando, por volta das 7:45, fui atender a porta. Eram dois adolescentes, e um terceiro que não pude ver, pois estava atrás do portão. Apontaram-me um revólver, renderam-me, levaram o meu celular e aproximadamente R$ 400 da empresa. Tinham a idade do meu filho, mas não se recusaram a mirar a arma para a minha cabeça.


Nunca vivi uma situação assim. Já passei por possibilidades de assalto, mas graças a Deus não se concretizaram. Naquele momento, não pude pensar em muita coisa; para ser sincero, não deu tempo nem de uma pequena súplica. Foi tudo muito rápido[1]. Apontaram o revólver, gritaram “assalto”, pegaram o celular sobre a mesa, revistaram as gavetas onde antes eu guardava a verba do pequeno caixa do escritório [e que ontem havia mudado de lugar]. Foi algo encomendado, pois sabiam direitinho onde eu guardava o dinheiro. Como não estava lá [a providência divina impediu que o prejuízo fosse maior], aproximaram a arma e exigiram a grana rapidamente. Fique apreensivo com a possibilidade de alguém chegar [um outro funcionário, um familiar, um amigo; o que sempre acontece aos sábados], de não dar a grana, e eles retaliarem; mas graças a Deus nada de mais grave aconteceu. Pedi-lhes calma, fui até onde havia guardado o pacotinho de notas, e entreguei-lhes. Juntaram alguns papeis na gaveta [documentos do caixa, os quais até agora não sei que serventia lhes teria], e saíram. Não sem antes ameaçar-me novamente de morte caso os seguisse ou chamasse a polícia. Não segui, mas liguei para o 190.


Interessante que não fiquei apavorado. Apreensivo, mas sem pânico. Eles pareciam muito mais nervosos e afoitos. Após saírem, agradeci a Deus por minha vida, e por ninguém mais estar ali comigo.


Como disse, não dá tempo de pensar em quase nada. Passam muitas coisas pela cabeça, sem que nenhuma delas se fixe ou ganhe corpo. Nem se tem as dimensões do perigo real. Horas depois é que as imagens voltam, e você começa a analisar o que poderia ter feito, ou o que poderia ter acontecido. O filme é reprisado, e é possível ver vários finais. Então, se chega ao que ninguém quer, ao desfecho mortal. Foi quando pensei, e daí? A morte pode ser algo dolorosa, como numa doença terminal ou na tortura. Pode ser rápida como num tiro certeiro. Ou serena, na velhice, durante o sono. Ela pode vir de muitas maneiras, mas invariavelmente acontecerá a cada um de nós, a menos que o Senhor decida-se por seu retorno em glória, o que parece ainda estar distante [ao menos, não há sinais de que ainda seja a hora; até porque, a hora ninguém sabe, somente Ele]. Pensei: o que seria de mim? E, ao reviver toda a cena, e chegar ao desenlace final [e ficcional], pude tranqüilizar-me pela segurança que Cristo dá à nossa salvação, a garantia da vida eterna. Veio-me à memória a Sua oração: “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse” [Jo 17.11-12].


Enquanto meditava, não pude deixar de me emocionar diante do amor que o Pastor tem por Seu rebanho; e senti-me, no instante, reconfortado e aquecido pelas promessas e proteção de Deus, de que estou seguro em Suas mãos, e ninguém pode arrebatar-me delas.


Houve a alegria que a indignação não pode impedir. Houve o conforto que a insegurança não pode reter. Houve a esperança que a desconfiança não bloqueou. Houve a paz que a aflição não estancou. Houve mesmo o regozijo de que o Deus vivo é soberano sobre tudo e todos, mesmo sobre o meu assalto. Como diria o pr. John Piper, numa analogia provável, não desperdice o seu assalto.


Quando as viaturas da PM chegaram, os vizinhos, familiares [trabalho próximo de casa] e curiosos espantaram-se com a minha calma. Provavelmente, em outros tempos, quando ainda não era convertido, reagiria aos marginais. Talvez os dominasse, talvez fosse dominado. Mas naquele instante, ainda que a situação fosse violenta e coercitiva, desfrutei de uma calma que não julgava existir. A mesma calma que tenho quando, hoje, penso na hipótese concreta da morte. Para alguém que desde a mais tenra idade se viu numa luta ferrenha contra a maior de nossas inimigas, ter a certeza de que ela foi derrotada na cruz por Cristo, dissipa toda e qualquer angústia.


Um dia morrerei. Um dia você morrerá. Um dia, todos estaremos diante do Juiz supremo. Contudo, o salvo, aquele que ouve e crê no Senhor, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas já passou da morte para a vida [Jo 5.24]. Mas ao ímpio,"como escapareis da condenação do inferno?" [Mt 23.33].


Porque “a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” [Jo 3.19].


Portanto, não desperdice o seu assalto, ou qualquer mal que lhe sobrevenha. Saiba que nada acontece alheio à vontade soberana de Deus, e de que, se for o roubo, a doença, o acidente, a catástrofe, a dor, ou qualquer outro desastre, cumpra-se a ordem de Paulo:"Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo para convosco" [1Ts 5.18]. Por que, na fraqueza, Deus nos faz fortes. E, assim como o ouro é provado pelo fogo, o crente é purificado nas provações, nas quais, ainda que um pouco contristados, devemos grandemente nos alegrar, para que a nossa fé se ache em louvor, e honra, e glória na revelação do Senhor [1Pe 1.6-7]. Sem as provações, como serão manifestos em nós os frutos do Espírito? Como ter mansidão, fé, longanimidade e temperança se estivermos em “céu de brigadeiro”?


Em um dos finais possíveis, me vi sobre um dos assaltantes esmurrando-o até desfigurá-lo. Não vou dizer que a idéia não me trouxe certo ânimo, e um desejo de vingança. Felizmente, não durou muito. Pensei também que poderia ter uma arma. De certa forma, a idéia não me agradou também. Isso não quer dizer que seja um pacifista, no sentido marxista da palavra. Sei que eles pregam paz quando querem guerra. E o objetivo é de que os outros sejam desarmados para que possam usar da sua beligerância sem qualquer resistência[2]. Não é isso. O crente combate muitas guerras. Porém nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra as hostes espirituais da maldade, para que possamos "resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes" [Ef 6.12-13].


Ainda que tendo direito, creio que o usaria apenas em circunstâncias extremas; provavelmente se um familiar, amigo ou indefeso precisasse de tal atitude diante de um ofensor. Seria eu um covarde? Talvez. A resposta mais certa seria sim. Mas há algo que o Senhor Jesus disse, e que por analogia serve para o Seu povo: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” [Jo 18.36]. Ainda que Cristo governe todo o universo, o Seu reino não é daqui. No reino de Cristo não haverá o mal nem o pecado. Então, por dedução, ainda que vivendo no mundo, não pelejaríamos contra ele, porque também não somos daqui. Deus não nos quer fora do mundo, mas livres do mal. E o mal pode ser exatamente não aceitar a perda. Pode ser o celular roubado, ou a saúde tirada, ou a demissão, ou a injúria sofrida, ou mesmo a morte. O prejuízo é algo inconcebível ao homem natural. Ninguém quer perder, antes todos querem ganhar. Mas o Cristianismo é diferente. Cristo deu-nos o exemplo de que, ao perder a Sua vida para depois tomá-la, ganhou para Si um povo eleito e santo, o qual foi remido pelo Seu sangue derramado na cruz, como o sangue de um cordeiro imaculado.


Infelizmente, não sabemos perder o que nos é caro [algumas coisas, desnecessárias], quanto menos administrar essas situações. Ao invés de nos sujeitar à vontade divina, nos iramos, desejamos vingança, revoltamo-nos nas vicissitudes, as quais nos levam diretamente às murmurações contra Deus. Em última instância, tudo é regido pelo Senhor, e se não nos acomodarmos à Sua vontade, rejeitando-a, rejeitamo-lO também.


Ainda que inconscientemente, se a glória de Deus é o fim de tudo, não o louvamos.


Jó, ao rebater as insanas palavras de sua mulher, disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?” [Jó 2.10]. Em tudo isto ele não pecou contra Deus. Mas e nós? O que diríamos se alguém nos dissesse: “Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre”? [Jó 2.9]. É nessas horas que se vê a diferença entre o servo e o não-servo; entre o que crê e o que não crê; entre o santo e o impuro; entre a verdade e a mentira. Não somente nas situações limites, mas no dia-a-dia quando somos confrontados pelas mínimas e insignificantes decisões, que nos levam a cometer o que muitos chamam de “pequenos delitos ou pecadinhos”.


Aquele revólver apontado para mim podia ser de brinquedo. Podia nem mesmo ter balas. Podia ser tão velho que jamais dispararia. Mas ainda que fosse mortal, pudesse me matar, e efetivamente me matasse, queria poder dizer do fundo do meu coração, com toda a minha alma: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor” [Jo 1.21].


Certamente, Deus me concederia mais essa graça, e eu diria.


Nota: [1] O meu pastor disse que deveria tê-los chamado para orar, no que ele está certo, e arrependo-me de não ter pensado isso; mas, ainda não sou espiritual a este ponto, infelizmente. E, de certa forma, vi o quão distante estou do homem espiritual, perfeito e santo, em que me transformarei na eternidade, pelo poder do meu Senhor. Isto não é desculpa para a minha carnalidade, apenas a constatação de que estou anos-luz de distância de poder dizer, como Paulo disse: Não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim... Na verdade, ainda nem orei pelas almas dos meliantes, o que farei de imediato; pedindo que Deus coloque em suas vidas um homem verdadeiramente espiritual, que lhes revele o amor e a graça de nosso Senhor, proclamando o Seu santo Evangelho.

[2] A intenção não foi discutir o assunto do ponto de vista sócio-político, ainda que tenha tocado ligeiramente na questão, mas uma abordagem essencialmente espiritual.

[3] Hoje, faz cinco anos da minha regeneração. Agradeço a Deus por ter se apiedado de mim, derramado sobre a minha alma sua graça e misericórdia, e escolhido-me antes da fundação do mundo para ser conforme a imagem do Seu Filho Amado Jesus Cristo. Há muito o que caminhar, e muito em que ser conformado à santidade e perfeição do Senhor, mas sei que a boa obra iniciada em minha vida se aperfeiçoará, e será concluída até o Dia de Cristo. Bendito seja o Seu santo nome! Amém!


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O CADÁVER QUE A CHUVA MOLHA










Por Jorge Fernandes

Muitos se perguntam se o Inferno existe. E dou-lhes certeza, existe! Por que a Bíblia diz. Não vou nem me ater a relacionar versículos. Eles estão em tão grande profusão por toda a Escritura que é desnecessário. Se alguém lhe falar que isso é “lenda”, “mentira”, “coação psicológica” ou “radicalismo teológico”, afaste-se dele, pois o objetivo é unicamente o de destruí-lo definitivamente, assim como ele mesmo se acha devastado.

Nos piores momentos de impiedade da minha vida, quando estava escravizado pelo pecado, eu acreditava tanto num tipo equivocado de amor divino, um amor engodado e subjugado, que não O considerava capaz de me condenar. Em minha loucura, achava que o Deus bondoso não poderia criar um lugar tão terrível como o descrito na Escritura, onde os pecadores fossem lançados e atormentados eternamente, "para o fogo que nunca se apaga, onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga" [Mc 9.43-44]. O meu coração estava tão corrompido pela autocompaixão, que o Seu amor era uma espécie de escudo protetor a me desobrigar de cumprir a Sua palavra, garantindo-me descumpri-la, e manter-me enredado no caminho pervertido. O objetivo era de que a minha iniqüidade prevalecesse sobre o amor de Deus; era como o calço que equilibraria a mesa defeituosa e manca; uma muleta capaz de fazer o coxo se arrastar sem que seja curado do seu mal. Era preciso que eu anulasse a Sua justiça e, por conseguinte, o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário, com a idéia perversa de um amor contemplativo e inútil, suficiente para me manter num coma irreversível.

É interessante como tudo se processa:

1) O conhecimento de Deus e de Sua Lei Moral, inatos em minha alma, revelavam-me os pecados, ainda que não os assumissem como tal.

2) Para justificá-los, apelava para o amor complacente, tolerante e conveniente, o qual julgava divino, quando não passava de uma tentativa desesperada de ser aprovado por Ele, sem a necessidade de arredar o pé da antiga vida de pecados.

3) Então suprimia o Inferno e qualquer tipo de condenação; acreditando que mesmo o diabo seria absolvido em nome desse suposto amor divino. No fundo, não passava de uma tentativa frustrada de demovê-lO da sua convicção, de considerá-lO volúvel e maleável, facilmente moldado por todo o meu coração perverso e estúpido.

4) Por fim, como a Escritura é categórica em relação ao julgamento de Satanás [e também do réprobo], optei pela sua não existência; e as citações escriturísticas não passavam de apelos morais à minha consciência, no sentido de o mal ser condenado e combatido na sociedade, sem que o pecador o seja. Desta forma, as criaturas tornavam-se mais importantes do que o Criador, e o projeto de santidade de Deus era uma mera obsessão ortodoxa, um delírio teológico legalista [1].

5) A expiação do Senhor, o tema central e corrente de toda a Escritura, passou a ter também um apelo meramente moral, no sentido de se buscar, seja na bondade, no serviço, na consciência, na integração social, o bem que há em nós e que sempre vencerá o mal. Somente desse modo a humanidade evoluirá por seus próprios meios, à sua maneira, até finalmente alcançar a perfeição [2].

Assim, progressivamente, vai-se afastando da revelação especial, em detrimento de uma “revelação pessoal”, na qual o ímpio conforta-se com a idéia de que tudo será perdoado, ainda que não seja necessário arrependimento, ainda que seja preservada a sua velha natureza, e a dissolução servisse de prêmio à desobediência, à leviandade, ao ignóbil pensamento de que se é possível “passar a perna em Deus”.

O novo-nascimento operado pelo Espírito Santo, primeiramente, nos revela a nossa condição imoral e iníqua. Sem a constatação do que somos, o reconhecimento de que estamos verdadeiramente perdidos e mortos para Deus, não há arrependimento nem salvação. Duvido do crente que diz que sempre foi crente. Por menor que seja o processo de regeneração, por mais tênue que seja a diferença entre a sua vida pregressa e a nova vida, há de se arrepender. Mesmo crentes nascidos em berços cristãos, cujos pais, avós e bisavós eram crentes, terão de se deparar mais cedo ou mais tarde com os seus pecados, sendo confrontados pela Palavra e o mover do Espírito em suas vidas. Ainda que se tenha lido a Bíblia muitas vezes, ouvido dezenas de pregações, e até se concluiu o seminário, o Evangelho não passará de construções gramaticais aos seus olhos e ouvidos, nada além de palavras e frases sucedendo-se sem sentido, ou quando muito, confundindo-o.

Porém, quando Deus o confronta com o texto bíblico e o Espírito Santo lhe revela a sua condição de rebelde, mostrando o seu estado miserável diante da santidade e glória divinas, não há como resistir: somos inapelavelmente abatidos em nossa soberba, nossos olhos são abertos, nossa mente é conformada à mente de Cristo, os joelhos se dobram, a cerviz se curva, e a escravidão do pecado é-nos arrancada, reconhecemos Cristo como Senhor, e somos eternamente salvos pelo Seu perfeito amor.

Então, qualquer tentativa de se minimizar o novo-nascimento como a transposição radical do reino das trevas para o Reino da luz, deve ser combatida. Nada é mais diabólico do que rejeitar o novo-nascimento, porque sem ele, o homem apenas será mantido no estado de impiedade, sustentando a inimizade contra Deus, a sua condição de caído em Adão, e a perpetuar a sua natureza carnal, conservando-se morto.

Sem a regeneração, não há salvação. Não adianta saber todos os versículos de cor, nem ter uma vida de aparente piedade, nem estar a serviço da igreja, nem dizimar e ofertar, nem participar da ceia, nem mesmo pregar a palavra. Deus pode usá-lo de várias maneiras [e o usará quer você queira ou não] e você pode até mesmo estar convencido de sua salvação, mas a sua fé não é por Cristo, mas em seus méritos próprios. E ninguém será justificado por obras de justiça própria; porque a sua fé não está nEle, mas em si mesmo, em seu esforço, e no grande cristão que você aparenta ser; nada disso surtirá algum efeito, a não ser condená-lo; ainda que se considere bom o suficiente para receber a misericórdia divina, quando, se não for lavado no sangue do Cordeiro, não poderá chegar diante do Seu trono alegando qualquer outra justificativa. A única que satisfaz o Todo-Poderoso é ser expiado por Cristo, e ser absolvido dos pecados pelo Seu sacrifício remidor.

Você não passa de um tolo! Não é salvo. Nunca foi. E continua sob a ira de Deus.

Se não houver aquele dia, em que numa ínfima fração de tempo você se viu como realmente é, e foi movido irresistivelmente pelo Espírito Santo a ser como Cristo, você ainda está morto em seus delitos e pecados. De nada adiantará espernear, alegar inocência, porque a obra de salvação é completamente de Deus, e o homem não pode auxiliá-lO em nada. Tudo é dEle para o eleito, o qual foi destinado para a vida eterna apenas pela Sua vontade. Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” [Rm 6.6].

O réprobo somente faz produzir provas contra si, infringindo a Lei Moral tantas vezes quanto a sua mente caída é capaz de se deleitar na malignalidade.

Por isso, muitos se recusam a crer no Inferno e na condenação; por que não foram regenerados, e se não foram, como acomodar os seus pecados à Palavra? Não tem jeito. É impossível. Então usarão de artifícios para desqualificá-la, distorcê-la ou recriá-la. Ao idealizarem o paraíso, contentam-se em permanecer atolados no pântano como se fosse possível fazer dele um jardim sem remover toda a lama. Querem que brote flores no terreno estéril. Querem exalar o doce perfume de Cristo, quando estão apodrecendo. Querem-se vivos, quando estão mortos. Querem respirar, quando estão asfixiados. É como o cérebro sem oxigênio.

Assim é o ímpio.

O cadáver que a chuva molha.

Nota: [1] Interessante que os liberais nos acusam de todo o tipo de distorção. Dizem que traçamos absolutos quando eles não existem. Dizem que levamos a Bíblia a uma literalidade doentia. Dizem que o propósito de Deus não é o de condenar ninguém. Dizem que a revelação especial foi construída por homens, e, portanto, está sujeita a falhas. Dizem que Deus deu apenas uma idéia geral do Seu plano, e que os homens acrescentaram e distorceram essa mensagem inicial. Dizem que a Bíblia não é divina, mas humana; e tem apenas bons exemplos morais, mas nada que leve a criatura à salvação ou condenação.

Eles proclamam uma cartilha de motivos para a sua impiedade, para manterem-se em conluio com o pecado, sem que haja qualquer prova concreta do que afirmam; nada além da mais simplória e débil especulação. Contrariamente, podemos afirmar que eles não passam de incrédulos, de crentes em uma fé distorcida e talhada à imagem dos seus deuses: eles mesmos e o diabo. E isso não é mera especulação. É o próprio Deus falando através da Bíblia, a revelação especial.

[2] A qual nada mais é do que a integração de todos os povos, raças e credos numa simbiose capaz de fazer com que a humanidade se unisse no projeto de construção do homem ideal. Isso significaria a união da luz com as trevas, do bem com o mal, do absoluto com o relativo, do fundamental com o dispensável, de Cristo com Belial, do santo com o profano, do incorruptível com o corrompido. Seria o mesmo que fundir água e óleo; e sabemos que eles não se confundem.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A GRAÇA ANULADA


















Por Jorge Fernandes


Lê-se e ouve-se muito falar de graça (assim como fala-se pelos cotovelos de amor), mas qual a definição de graça? Seria a graça algo que pudesse servir a múltiplos propósitos, ou é a graça direcionada para apenas um objetivo, ao qual o bom Deus estabeleceu?

Nem vou me alongar quanto à questão da interpretação. Se o Espírito Santo não é suficiente para revelar ao crente mais afoito o significado do que está claramente exposto na Escritura, o que posso fazer além de orar por sua alma? Também não falarei da graça comum, a qual Deus derramou sobre justos e injustos. O foco aqui é a graça salvadora, e a sua ação na vida do crente. Tentarei explicar porque muitos que se consideram sob a graça salvadora enganam-se, pois a ira de Deus permanece sobre eles.


Algumas definições:


1) Dicionário Priberam - graça - s. f. 1. Favor. 2. Perdão. 3. Benevolência. 4. Chiste. 5. Gracejo. 6. Dom sobrenatural, como meio de salvação ou satisfação.[1]


2) Dicionário Wyclife - graça – grego “Charis”, significa: 1. Aquilo que causava atração. 2. Consideração favorável sentida em relação a uma pessoa. 3. Um favor. 4. Gratidão. 5. Usada adverbialmente em frases como: “Por amor a alguma coisa”.[2]


3) Dicionário. Internacional de Teologia N.T. [Entre tantas definições da palavra Charis e Charisma, ficarei com a seguinte, a qual é o foco deste texto] – graça – 1. Dom não merecido, da parte de Deus, às suas criaturas.[3]


Graça é o favor imerecido que Deus concede aos eleitos, os quais estão mortos em seus delitos e pecados e são vivificados pelo Espírito; os quais são inimigos de Deus e se tornam seus amigos; os quais estão condenados e são absolvidos; os quais estão destituídos da Sua glória e passam a ser participantes dela; os quais mereciam perecer no fogo do Inferno e são perdoados, e viverão a eternidade no Céu. A graça é algo que recebemos sem merecer, fruto da misericórdia de Deus, a expressão do Seu amor pelos eleitos, que não nos dá o que merecemos: a morte definitiva.


Pelo sangue derramado do Seu Filho Jesus Cristo, os eleitos são resgatados da condenação do pecado, regenerados pelo poder do Espírito Santo, feitos membros do Corpo de Cristo, salvos e restituídos à comunhão com Deus. Quando não havia esperança, Deus providenciou a esperança. Quando não havia saída, Deus providenciou a saída. Quando estávamos cegos, Deus abriu-nos os olhos. Quando surdos, fez-nos ouvir. Quando havia apenas uma disposição no nosso coração, o pecado, Ele nos santificou, tornando-nos mais alvos do que neve. Quando estávamos em guerra, Ele nos deu a paz. Tudo isso realizado por Cristo na cruz do Calvário, quando pelo Seu sangue, fomos lavados e remidos, transformados de criaturas caídas em filhos adotivos de Deus. Co-herdeiros do Reino de Cristo, da herança incorruptível: a vida eterna.


Vale dizer que todos os nossos pecados, passados, presentes e futuros, foram infalivelmente perdoados; e de que nada, absolutamente nada, nem mesmo a minha vontade, poderá retirar-me da condição de salvo, fazer-me perder o que Cristo me deu e pagou com alto preço. O padrão divino de graça é tão alto e eficaz, que a despeito de tudo o que o homem pode fazer em sua rebeldia, o eleito estará segura e eternamente salvo.


Porém, quer dizer que o eleito poderá fazer o que bem quiser, ou seja, cometer quantos pecados quiser, por já estar salvo? Paulo diz: “Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Rm 6.1-2).


Esse tipo de pensamento é uma afronta a Deus, é uma blasfêmia, a prova de que essa pessoa nunca experimentou a salvação, a regeneração espiritual, não possui a mente de Cristo, e está morto em suas ofensas. Porque “sabemos isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6.6).


O novo homem foi crucificado com Cristo, para que não viva pela carne, nem dê vazão às suas paixões e concupiscências (Gl 5.24). O novo homem está em Cristo, e Cristo nele, para que dê muitos frutos, para sermos o louvor da Sua glória (Jo 15.5, Ef 1.12). O novo homem está firme na liberdade com que Cristo libertou, não estando debaixo do jugo do pecado, sendo agora servo da justiça (Gl 5.1, Rm 6.18). O novo homem foi criado para as boas obras, “as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). O novo homem não se utiliza do fato de estar debaixo da graça e não da lei para pecar (Rm 6.15). O novo homem aprende e é ensinado pela verdade em Jesus (Ef 4.20-21). O novo homem não se corrompe mais pelas concupiscências do engano (Ef.4.22). O novo homem já está despido do velho homem com os seus efeitos, e já está vestido do novo, “que se renova pelo conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10-11), e segundo Deus, é criado em justiça e santidade (Ef 4.24).


O eleito tem então, pela graça, as seguintes provisões: 1. A justificação (Rm 3.24). 2. A capacitação (Cl 1.29). 3. Uma nova posição (1Pe 2.5,9). 4. Uma herança (Ef 1.3, 14).


Pelo que já foi dito, está mais do que evidente que a salvação é pela graça (Ef. 2.8-9), não há a menor possibilidade de alguém ser salvo por suas próprias obras, pois a salvação, como plano elaborado e executado, tem apenas um arquiteto e construtor, o próprio Deus. O qual operou a salvação nos eleitos de duas formas: 1. Através da expiação de Cristo na cruz. 2. E pela graça irresistível, Deus regenera o pecador, levando-o inevitavelmente a Cristo, a fim de que se arrependa e seja salvo. Como se vê, a graça divina é invencível, e nunca deixará de produzir os efeitos a que foi destinada: a salvação dos eleitos; libertando-os de sua vontade natural iníqua, e moldando-os eficazmente para serem conforme a imagem de Jesus Cristo (Rm 8.29).


Outro benefício produzido pela graça na vida do crente é a santificação. E o que é santidade? Ela é designada no hebraico pela palavra qadosh e qodesh, e no grego por hagios e hagiosyne, que significam cortar, separar; revelando-nos a posição ou relação existente entre Deus e suas criaturas. A idéia da distinção que há entre o comum, o profano e o impuro da criação, com o que é puro e perfeito, a natureza divina. A santidade é o próprio Deus, é o que o caracteriza, e ela inclui todos os seus outros atributos, os quais são coordenados e aplicados por ela, fazendo com que tudo aquilo que O revela seja santo (a graça, o amor, a justiça, a ira, etc). Logo, Deus sendo santo está isento do pecado, e a santidade assume o caráter de nos separar do pecado e nos conformar ao Seu padrão moral.


Assim, a exortação bíblica é para que o eleito seja santo como Deus é santo (Lv 20.26, 1Pe 1.16). Porém, qual o critério de santidade? A santidade de Deus é revelada na lei moral cravada no coração do homem, e pela revelação especial, a Escritura. Especialmente, ela se revela na lei dada a Israel. Como aio, a Lei Moral nos revelou o pecado e a necessidade de arrependimento, para que sejamos novamente reatados à comunhão com Deus, pela fé em Cristo.


São duas ações que levará o eleito à santidade: 1. Na conversão, ele é santificado de maneira posicional em relação a Deus, ou seja, recebemos a santidade de Cristo que nos é imputada, como uma virtude que passamos a ter exclusivamente pela graça salvadora. 2. A obediência aos Seus mandamentos, como a prova do nosso amor pela graça recebida e repousada sobre nós.


O eleito desde sempre é santo por Cristo. Mas o eleito se santifica progressivamente, como fruto da boa obra de Deus iniciada e aperfeiçoada em sua vida (Fp 1.6), no tempo. Nem a santificação posicional, nem a santificação pela obediência podem ser indissociadas. Uma não subsiste sem a outra, e ainda que a segunda necessite da primeira, elas estão entranhadas da mesma forma que irmãos siameses não podem viver separados (como uma idéia geral, não particular). Uma é conseqüência da outra, e ambas são causas de si mesmas. O que não quer dizer que são autoexistentes, mas subsistem pela vontade direta e perfeita de Deus; provém dEle, para que aprovemos as coisas excelentes, para que sejamos sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo (Fp 1.10).


Ele nos elegeu em Cristo antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos irrepreensíveis diante dEle (Ef. 1.4); e a santidade do crente repousa nessa posição, e em sua entrega progressiva, minuto a minuto, à vontade divina e à disposição de andar nos Seus santos caminhos. O fato de ainda permanecermos com a natureza caída, não nos exime do dever de obedecer aos princípios morais bíblicos, nem de trilhá-los, muito menos de ignorá-los em favor dos nossos deleites e paixões carnais. Ainda que a perfeição dependa da remoção final da natureza ímpia, o cristão deve seguir em frente, rumo à perfeição, como imitador de Cristo, o qual é perfeito e santo.


Para isso, é fundamental o estudo da Palavra, através da qual conheceremos Deus e Sua santidade, conheceremos a Sua vontade santa, tomaremos contato com Sua Lei santa, aprenderemos a viver em santidade, a desejá-la e buscá-la, para que através de nossas vidas Deus seja glorificado, e pela ação do Espírito Santo, sejamos santificados.


Infelizmente, o que se tem visto é a banalização da graça. Muitos, utilizando-se indevidamente da palavra, têm se entregado a todo o tipo de pecado; têm se regozijado em sua carne; têm rejeitado a verdade, e vivido intensamente a mentira, sem nenhum sinal de arrependimento, sem nenhuma mudança de vida; fazem-se pior do que a porca lavada na imundície da lama (1Pe 2.22). Negam Cristo e sua eficácia, trazendo sobre si mesmos a condenação. Eles propagam a vergonha herética do antinominialismo, de que o cristão não precisa se submeter ao padrão moral previsto na lei mosaica, bastando a fé, pois a graça se encarrega de deixar “livre” o caminho para o pecado sistêmico. E isso tem outro nome, chama-se depravação autônoma e deliberada de se rebelar contra Deus. Ele ouve a palavra, mas a despreza. Acomodando-a e distorcendo-a em seu arcabouço de iniqüidade. “Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era” (Tg 1.23-24). Ou ainda é como “aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda” (Mt 7.26-27).


Ele é o tolo que acha possível enganar Deus. Em seu erro, acredita que Deus se deixará escarnecer, e de que não colherá aquilo que plantou. Na mais profunda ignorância, esforça-se em semear diligentemente na sua carne, na ilusão de não ceifar a corrupção, e ganhar a vida eterna.


O pensamento dele é façamos males, para que venham bens; porque não estamos debaixo da lei, mas da graça, por isso, pequemos. Ao que Paulo respondeu: “A condenação desses é justa” (Rm 3.8).


E assim, pela desobediência, o mal não é restringido neles, não têm os seus pecados revelados, não agradam a Deus, pelo contrário, ofendem-nO, apascentando a si mesmos sem temor (Jd 12); e como meninos levados em roda por toda a sorte de enganos dos homens (Ef 4.14), são incapazes de discernir tanto o bem como o mal (Hb 5.14), negando o Senhor e “trazendo sobre si mesmos repentina perdição” (2Pe 2.1), prometendo liberdade, acabam sendo escravos da corrupção, “porque de quem alguém é vencido, do tal faz-se também servo” (2Pe 2.19), “para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva” (2Pe 2.17).


Com isso, o objetivo deles é o de disseminar na igreja a dissensão e a rejeição à lei de Deus, invadindo a igreja com a fragilidade do pecado, debilitando-a, levando-a ao caminho inverso da santidade: a pecaminosidade. O exemplo máximo do que esse tipo de pensamento pode fazer, e onde chegar, é o estabelecido pela igreja emergente. Eles são sutis em suas mensagens, especialmente por rejeitarem o Evangelho da Cruz, ao qual Paulo disse estar crucificado para o mundo, e o mundo para ele, e do qual ele se gloria (Gl 6.14).


Outras sutilezas são impregnadas paulatinamente nessa doutrina, como a não inspiração e inerrância da Escritura. E assim, pouco a pouco, desviam-se cada vez mais da verdade, uma espécie de desconstrução bíblica, em que a mente pós-moderna e caída se prende a um tipo de tortura mental, em que a dúvida e a incerteza são as plataformas de sua doutrina falida e diabólica, na qual a sua confiança está na carne ao invés de depositada no Senhor (Fp 3.3). Daí, para se afastar definitivamente do padrão bíblico de santidade, e se entregar ao padrão mundano da imoralidade, é um pulo. Começa-se a defender o adultério, o divórcio, a homossexualidade, a masturbação, o aborto, o paganismo ecumênico, e todo tipo de degradação existente, onde o homem ocupa todo o seu coração com a própria desordem, e não há lugar para Cristo. Ao contrário de Paulo, não se quer perder todas as coisas, e considerá-las esterco, para ganhar a Cristo (Fp 3.8).


O que se tem é o evangelho diluído, moderno e cativante, de um estilo elegante e hábil, propositalmente despojado, chegando mesmo a ser fascinante, contudo, ineficaz para a salvação, terrivelmente letal, através do qual é anulada qualquer possibilidade de esperança.


Por que assim como os fariseus esperavam a justificação pela Lei, aqueles que não a usam legitimamente, rejeitando-a, serão julgados pela Lei. Ao não entenderem o que dizem nem o que afirmam dizer, colocaram-se debaixo da Lei. Para eles, não há graça, porque as suas palavras os roerão como gangrena.


“Mas o Senhor conhece os que são seus” (2Tm 2.19).


Nota: [1] Priberam - disponível AQUI

[2] Dicionário Bíblico Wycliffe - Ed. CPAD

[3] Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento - Ed. VIDA NOVA

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Jovem Rico: Condenado? [Comentário Marcos 10.17-27]








Por Jorge Fernandes

Por causa do texto Velhos e Novos Fariseus entrei novamente no debate sobre o amor divino, se ele é extensivo a toda humanidade ou somente aos eleitos. Os argumentos podem ser lidos nos comentários ao post, inclusive a discussão se Deus tem sentimento e emoção, ou não.

O irmão que levantou a questão de Deus amar a todos citou o trecho de Marcos 10.17-31, reivindicando-o como prova de que Deus ama até mesmo os réprobos. No que, não concordei; e expus parcialmente minhas conclusões à luz do texto.

Como ainda não havia lido nada parecido com a minha interpretação (a qual nem mesmo eu tinha pensado anteriormente, ainda que lesse o trecho por várias vezes), decidi fazer um estudo, e aprofundar-me nela. Especialmente na única parte que não está presente em Mateus 19.16-30 e Lucas 18.18-30 (textos correlatos), o qual é: “E Jesus, olhando para ele, o amou” (Mc 10.21).

A questão é: Jesus amou o jovem rico, e mesmo amando-o, condenou-o ao inferno? O centro da questão é a expressão “o amou”, aoristo derivado do verbo grego agapao[1], empregado para designar o amor de Deus para com o homem.

O versículo completo é: “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” (v.21).

De uma forma geral, e eu mesmo sempre pensei assim, é dado como certa a condenação do jovem, como alguém que não alcançou o Céu. Mas, baseado em quê podemos afirmar tal coisa?

Existe alguma passagem que evidencie claramente a não conversão daquele jovem?

Vejamos algumas declarações na passagem:

1- O jovem demonstrou-se humilde e reverente ao correr até Jesus e ajoelhar-se diante dele, chamando-O "Bom Mestre” (v.17).

2- O jovem quer saber como herdar a vida eterna (v.17).

3- Cristo assevera que apenas um é bom, Deus (v.18). E pergunta-lhe se sabe os mandamentos, citando alguns deles (v.19).

4- O jovem respondeu:"Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade” (v.20).

5- Após o Senhor dizer que lhe faltava vender tudo, dar aos pobres, tomar a sua cruz e segui-lO; ele, “pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades” (v.22).

A partir desse relato, sabemos que o jovem rico partiu, e nada mais sabemos dele. Então, por que a maioria dos comentaristas e pastores decidiu-se pela sua condenação irremediável?

Muitos se apegam ao que o Senhor disse aos seus discípulos: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!... Quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (v. 23-25).

Recapitulando:

1- Cristo o amou, pediu-lhe para dispor os seus bens, e então, segui-lO.

2- O jovem, pesaroso, afasta-se.

3- O Senhor proclama que é muito difícil um rico entrar no reino de Deus.

Onde está escrito que esse jovem não foi salvo? Onde se encontra a garantia de que ele não foi regenerado? E de que não herdou o reino de Deus? A inferência que a maioria faz é de que, como é difícil ao rico herdar o Reino, e aquele jovem teve a sua chance e não a aproveitou, ele foi condenado. A conclusão vai muito além do texto bíblico; na verdade, ela impõe-se ao texto bíblico. Não seria o caso do texto revelar a impossibilidade de alguém obter a salvação por mérito próprio, de, sem a regeneração e o convencimento dado pelo Espírito Santo, alcançar a salvação?

Seria por demais imperioso sustentar a sua perdição. O que está visível e claro é que o jovem, por si só, por suas forças e méritos, não conseguiria a salvação, evidenciando-se que ninguém, por justiça própria (ainda que seja uma mera alegação como a do jovem), pode requerê-la ou obtê-la de Deus.

Alguns pressupostos escriturísticos:

1- Cristo amou a Igreja (Jo 15.9; Rm 8.37; Ef 2.4, 5.2; 1Jo 4.10; Ap 1.5).

2- Cristo morreu pela Igreja, e expiou-a (At 20.28; Ef. 5.25;1Ts 5.10).

3- Cristo não ama os réprobos, pois sobre eles a Sua ira permanece (Jo 3.36; Rm 1.18, 2.5, 9.22; Ef 2.3, 5.6; Cl 3.6;1Ts 2.16).

4- Cristo ama os eleitos, porque sobre eles não derramará a Sua ira (Rm 5.9, 9.23; 1Ts 1.10, 5.9).

Voltando à pergunta inicial, não parece ilógico que Cristo amou o jovem rico, mas ainda assim o condenou? Se Deus é imutável, como pode amar e odiar ao mesmo tempo? Alguém pode alegar: Mas Cristo tem a natureza humana. Sim, é verdade. Contudo, Ele jamais pecou (Hb 4.15, 7.26, 9.14; 1Pe 1.19) e, como Deus, é imutável, porque Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8).

Logo, temos aqui um conflito. Ou Cristo amou aquele jovem, e se o amou, assim como ama apenas e tão somente a Igreja, ele foi salvo. Se Cristo condenou-o, não o amou. Mas o texto diz que Ele o amou, então não há por que duvidar que o jovem fosse alvo da graça divina, que o salvou.

Porém, é possível confirmar isso?

Lê-se: “E eles se admiravam ainda mais, dizendo entre si: Quem poderá, pois, salvar-se?” (v.26).

Diante do que o Senhor disse, os apóstolos, como bons mortais, olharam para si mesmos e não viram a menor chance de salvação. Se aquele jovem dizia seguir os mandamentos, parecia sincero em seu desejo de salvar-se, e havia procurado Cristo com esse objetivo, ao não abrir mão de suas posses, refugou; quais seriam então as suas chances? A pergunta demonstrava o estado de espírito deles: não tinham a menor capacidade de salvarem-se por seus esforços.

Aquele rapaz serviu como o modelo de fracasso humano em se obter êxito próprio diante de Deus. A natureza ímpia em nada ajuda. As boas intenções são infrutíferas. A justiça própria é como trapo imundo. Por maior que seja a vontade, o empenho, a disposição de agradar a Deus, decididamente, restar-nos-á a desgraça. Por que, apenas pela Sua graça, a qual proporcionou a remissão dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário, aos eleitos é possível a salvação. Não há outra maneira. Deus decidiu-se por um único caminho, Jesus Cristo, E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.12). Mas parece que os discípulos ainda não tinham noção do caráter redentor do Senhor entre nós.

Há de se entender também que diante das promessas do AT da abundância de coisas temporais, e da tradição dos mestres judeus em afirmar que os homens ricos eram os escolhidos por Deus, a resposta de Jesus caiu-lhes como uma ducha de água fria. Se o rico não podia entrar, quanto mais os pobres. Porém, ao meu ver, a questão principal não é se ricos ou pobres são mais aceitáveis diante de Deus, mas a completa impossibilidade de tanto ricos como pobres de salvarem-se a si mesmos. Cristo quer que os discípulos concluam que é impossível ao homem, por seus meios exclusivos, escapar da condenação eterna. É o que lhes respondeu:

“Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” (v. 27).

A salvação portanto é um dom de Deus, “para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado, em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1.6-7); “porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” (Rm 8.29.30).

Assim sendo, da mesma forma que muitos inferem que o jovem foi condenado, de minha parte deduzo que Cristo respondeu não somente aos seus discípulos, mas a todos nós, declarando que também aquele jovem, ao qual o Senhor amou, podia ser alvo da graça divina, e salvo finalmente.

O amor de Deus está diretamente ligado àqueles que foram comprados pela morte do Seu Filho Amado. Se um reprovado não foi comprado por Cristo, não há amor. Por que todos fomos feitos um em Cristo, todos somos participantes do Corpo de Cristo, todos fomos eleitos em Cristo, todos seremos semelhantes a Cristo, viveremos e reinaremos eternamente por Cristo. O condenado não participará de nenhuma dessas situações, logo, não pode ser o alvo do amor de Deus, por que ele não está em Cristo, nem Cristo nele.

Concluindo, Cristo amou os eleitos, e não levou sobre Si os pecados de todos, mas de muitos (Hb 9.28); não deu a Sua vida e morreu por todos, mas por muitos (Mt 20.28, 26.28; Jo 11.51-52); não amou a todos, mas a muitos (2Ts 2.15-16); e não rogou pelo mundo, nem por todos, “mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo 17.9), referindo-se às ovelhas que o Pai eternamente depositou em Suas mãos, a fim de serem infalivelmente resgatadas da condenação eterna.

Cristo amou o jovem rico.

Por que duvidar da sua salvação?

Nota: [1] Agape e Agapao se empregam em quase todos os demais casos no NT para falar do relacionamento entre Deus e o homem - e isto não de modo inesperado, tendo em vista o uso no AT. No caso do subs. agape, porém, não há uso negativo correspondente no NT. é sempre no sentido de he agape tou theou, "o amor de Deus", ou no gen. subsjetivo (i.é, o amor dos homens por Deus), ou com referência ao amor divino por outras pessoas, que a presença de Deus evoca. Desta forma, agape fica bem perto de conceitos tais como pistis -> justiça e charis -> graça, todos os quais têm um ponto único de origem, em Deus somente (Dic. Internacional de Teologia do NT, pg 117 - Editora Vida Nova).

terça-feira, 15 de setembro de 2009

TEMPOS TRABALHOSOS








Por Jorge Fernandes

Na igreja, convivemos com os fariseus (leia aqui). Agora, veremos um outro grupo, daqueles que têm o nítido interesse em corromper a fé cristã, os apóstatas. Há muitos trechos na Escritura que os descrevem, mas, especialmente, analisaremos 2Tm 3.1-7.

Paulo inicia falando dos tempos trabalhosos que sobreviriam nos últimos dias (v.1). Essa é uma nítida evidência de que estamos diante de uma profecia. Muitos alegarão que ele está a predizer um futuro distante, o que é verdade. Mas, especificamente, ele escreveu a Timóteo, o seu “verdadeiro filho na fé” (1Tm 2), ou simplesmente “meu amado filho” (2Tm 1.2); com o objetivo de instruí-lo e exortá-lo a permanecer na “fé não fingida que em ti há” (2Tm 1.5). Portanto, Timóteo estava sendo alertado quanto aos filhos de satanás que se infiltrariam na Igreja a fim de perverter o Evangelho, causando estragos à fé. Como dupla profecia, ela serviu de alerta para Timóteo e os irmãos da Igreja Primitiva, quanto para todos os crentes em todos os tempos. Logo, é um aviso para nós também, o qual não pode ser negligenciado nem desprezado.

Os tempos difíceis referem-se não ao ataque externo, daqueles que odeiam a fé cristã, e estão dispostos a persegui-la, destruí-la se possível; mas ao ataque sutil, malévolo, engenhoso, daqueles que se dizem crentes, têm um comportamento parecido com o de um crente, muitos se comprometem com a Igreja, até mesmo professam algumas verdades, mas, em seu íntimo, têm a mesma aversão e ódio que os de fora, e o intuito é o de igualmente destruir a fé cristã.

São traidores, ardilosos; lançam discórdias, plantam dúvidas, suspeitam de quase tudo, espalham uma crença vacilante com o propósito de implantar na Igreja a perplexidade, a ambigüidade; fazer a fé cristã parecer menos a revelação divina e mais um amontoado de pontos indistintos; claramente dispostos a engendrar a confusão, o ceticismo, a rejeição à Palavra. Ao dar ouvidos a espíritos enganadores e a doutrina de demônios, têm a consciência cauterizada, e se entregam a proclamar a mentira (1Tm 4.1).

Eles trabalham como se fossem “missionários” satânicos, a espalhar o antievangelho, convocando nas fileiras de bancos das igrejas uma nova tropa de apóstatas que se unirão a eles e batalharão pela guerra perdida do seu general, contudo, sem deixar de fazer sérios e grandes estragos.

É interessante como esse processo se dá:

1- A pessoa ouve a mensagem do Evangelho.

2- Ela entende e compreende a mensagem. Do ponto de vista intelectual ela é capaz de estabelecer os vários pontos da doutrina cristã de forma correta.

3- Ela professa aceitá-la. Muitos dão testemunhos da sua fé, são batizados, participam da Ceia, e têm cargos de liderança na igreja. Ganham a confiança e o respeito quando, na verdade, são desrespeitosos e desconfiam de tudo e de todos.

4- Por fim, depois de algum tempo, rejeitam o Evangelho.

O estado final deles é o qual Pedro relatou em sua segunda epístola. Prometem liberdade quando são servos da corrupção. E após terem escapado da depravação do mundo, pelo conhecimento do Senhor Jesus, envolvem-se novamente nela, “e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado; deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: o cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (2Pe 2.20-22) [1].

Eles fingem-se cristãos para solapar o cristianismo; o que os torna ainda mais reprováveis, deploráveis, repugnantes, pois dizem amar o que odeiam, e estão dispostos a tudo para sabotar a verdade, subvertendo-a; utilizando-se da própria terminologia bíblica para adaptá-la à mentira, e assim, inventar outro evangelho, redefinindo as doutrinas cristãs segundo os seus padrões de malignidade, corroborado pelo silêncio tolerante da igreja em nome do falso amor.

No fundo, são o que Judas sintetizou: “Se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (v. 4).

Mas, por que não são notados? E se são, por que a igreja permite-se ser envenenada?

1- Porque a maioria não conhece ou não se interessa em conhecer o Evangelho. Como antibereanos, deixam-se levar por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4.14).

2- Porque a igreja amou mais dar satisfação ao mundo do que a Palavra e a si mesma. Amou mais as trevas do que a luz (Jo 3.19).

3- Porque a igreja não está disposta à autocorreção. Estão tão inchados em sua vaidade, ou são tão covardes em reconhecê-la, que não se dispõem a disciplina bíblica. Com isso os rebeldes estarão livres para lançar as sementes da dissolução, adubá-las, regá-las, e colher os frutos para satanás. Antes, já é tempo do julgamento começar pela casa de Deus (1Pe 4.17).

4- Porque a igreja desistiu de batalhar pela fé que uma vez dada aos santos (Jd 3); e decidiu não resistir mais, ao banquetear-se com o inimigo, recebendo o galardão da injustiça (2Pe 2.13), e apascentando-se a si mesma sem temor (Jd 12).

Dizem “paz, paz, quando não há paz” (Jr 8.11).

Desfraldamos a bandeira branca ao inimigo, convidamo-lo para celebrar o armistício; chegamos mesmo a deixar que governe a nossa casa; entregamos nossas armas; deixamos que desfrute dos nossos tesouros para, como bem-treinado terrorista e espião, atacar sutilmente e deteriorar a verdade, introduzindo fraudulentamente os desvios, os subornos que induzirão ao motim dentro da igreja.

“Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela... que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade”(2Tm 3.5, 7).

Eles simulam piedade quando, na verdade, negam-na completamente na vida prática, pois não têm o menor desejo ou intenção de se afastarem dos seus pecados. Por mais que seja revelada a verdade, por mais que a vejam, ouçam, ela lhes será inexpugnável, seus ouvidos continuarão surdos, seus olhos cegos, suas mentes obliteradas, seus corações duros como pedras. “Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem... a fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração. E se convertam. E eu os cure” (Rm 11.8; Jo 12.40).

Hoje, para escândalo do Evangelho, muitos ditos “irmãos” sequer se preocupam em manter as aparências. Eles não agem sutilmente, nem dissimuladamente. São explícitos e diretos em sua pecaminosidade. Fazem questão de mostrá-la em alto e bom som para que todos vejam o quanto a sua alma é degradada; e batem no peito, garantindo que não mudarão, que terão de ser “engolidos” assim como são. Demonstram claramente a que vieram, e porque estão ali: a arrogância e o desprezo a Deus. São verdadeiros “caras-de-pau”, mas ao menos conhecemo-los o suficiente, pois não deixam nenhuma dúvida quanto aos seus caracteres ímpios. “Destes afastas-te” (2Tm 3.5). Mas, e quanto aos educados, tolerantes, encantadores, agradáveis, e revestidos de uma áurea inocente, com suas frases cheias de citações bíblicas, aparentando-se espirituais? Não são os mais difíceis de serem detectados? Aparentemente, sim. Contudo, Paulo os descreve precisamente: “estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé” (2Tm 3.8).

Quanto mais nos afastarmos da Bíblia, como a revelação divinamente inspirada de Deus; quanto mais nos envolvermos com os conceitos anticristãos; quanto mais dermos ouvidos às sandices do mundo, tendo a necessidade de nos justificar perante ele e de mantermos uma “aliança” perigosamente mortal; enquanto considerarmos que o homem do presente século é muito diferente do homem de dois mil anos atrás; enquanto nos enganarmos com as promessas de que os tempos são outros, e de que a verdade pode ser relativizada e contextualizada ao ponto de não se crer na infalível palavra de Deus; enquanto não resistirmos a todas as tendências imorais, antiéticas e voltadas unicamente para os deleites do homem, como o objetivo premente, à revelia dos princípios bíblicos; enquanto a fé for subjetiva em detrimento da objetividade do Evangelho; enquanto estivermos mais preocupados com as aparências do que com os fundamentos; enquanto estivermos adormecidos, e os agentes do mal labutando; enquanto... Seremos facilmente enganados até ao ponto em que não reconheceremos mais a verdade, e seduzidos pelo engano, teremos a mentira por fé.

Portanto, a Escritura, e somente ela, é a única capaz de revelar o inimigo, suas táticas, e a maneira segura de pô-lo em retirada.

Somente assim não seremos confundido, “porque tudo o que dantes foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação da Escrituras tenhamos esperança” (Rm 15.4).

Não se deve desprezar o inimigo, mas deve-se saber que, por Cristo, ele já foi e está vencido (Cl 2.15).

Os tempos são difíceis, porém, gloriosos.

Os tempos são trabalhosos, então, mãos-à-obra; porque "grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos" (Lc 10.2).

Nota: [1] Sem entrar na questão da Perseverança dos Santos, Pedro não está dizendo que o crente, aquele que foi regenerado pelo Espírito Santo e salvo eternamente por Cristo, possa apostatar da fé. O texto analisa aqueles que ouviram a mensagem do Evangelho, professaram a fé cristã, mas, em algum momento, consideraram haver alguma injustiça no caminho da justiça e alguma mentira no caminho da verdade. Desta forma, estão a provocar Deus, e se voltam como cães adestrados pelo diabo a lamber o próprio vômito, ou seja, a volta à vida pecaminosa e da qual, por algum tempo, se afastaram. Assim, estarão aptos a receber o galardão da injustiça ao deleitarem-se em seus enganos.

Os eleitos, pelos quais Cristo morreu na cruz do Calvário, jamais apostatarão. Podem até envolverem-se em alguns erros doutrinários (erros periféricos, diria), mas a fé dada uma vez aos santos permanecerá firmada em seus corações como dádiva de Deus, e da qual nunca nos separará.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

VELHOS E NOVOS FARISEUS [Comentário a Mateus 23.1-12]








Por Jorge Fernandes

A Bíblia esteve nas mãos dos judeus e, ainda que a estudassem diligentemente, não compreendiam os reais propósitos divinos; escutavam muitas vozes, muitas sugestões, muitas interpretações, mas a voz do Espírito Santo era-lhes por silêncio. De forma diabólica, os escribas e sacerdotes ouviam apenas a si mesmos e aos seus pares, corrompendo e acrescentando à palavra de Deus seus próprios conceitos, insuflando o povo a segui-los como se fosse o conselho divino. É o que está escrito: “Na cadeira de Moises estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem move-los” (Mt 23.1-4).

Ao sentarem-se na cadeira de Moisés, os líderes do templo liam as Escrituras, tanto a Lei como os Profetas, explicavam-nas e ensinavam-nas, de forma que cumpriam o trabalho honrado de preservar e propagar a palavra escrita. Contudo, a despeito da autoridade investida (eram também juízes no tribunal onde a Lei Mosaica era a lei civil), suas atitudes não eram compatíveis com aquilo que proferiam. Eles eram “atores”, interpretavam o papel de alguém que não é, não pode ser, ou não quer ser. O hipócrita encontra-se no mais miserável de todos os estados, o de guiar os outros quando está completamente perdido; e de ser incapaz de ver a própria ruína e inutilidade. Por isso, Cristo exortou o povo a ouvi-los, mas não a segui-los (1).

Por diversas vezes, Ele os chamou de hipócritas, insensatos, cegos, assassinos, raças de víboras. Há os que vêem nas palavras do Senhor uma admoestação branda, um apelo amoroso para que os fariseus e escribas se convertessem da sua disposição ao pecado e a oposição a Deus. Porém, em Mateus 23, Jesus os censura duramente através de uma série de “ais” e em descrições pormenorizadas das suas atitudes pecaminosas. Não vejo, na contundência de Suas afirmações, nenhuma demonstração de amor para com o alvo do Seu ataque. Antes, em Suas palavras, é visível a sentença condenatória.

A forma como os “ais” são proferidos, mostram a nítida ira do Senhor para com aqueles homens; e não há porque ser diferente, visto que a Bíblia revela a soberana autoridade de Cristo para salvar e também para condenar. E é esse o caso. Cristo está a julgar os principais. Aqui Ele não se refere a eles como amigos, mas como a inimigos. Parece que, de certa forma, para alguns, se Ele está julgando-os, está agindo injustamente. Mas, lembremo-nos de três coisas:

1-Cristo é Deus. A segunda pessoa da Trindade Santa; o Filho eterno; nosso Senhor e Salvador, cuja morte na cruz propiciou a libertação e vida a muitos; Aquele pelo qual todas as coisas foram feitas; e pelo qual o mundo será julgado. Portanto, se há alguém com autoridade, justiça, santidade e retidão para julgar qualquer pessoa ou evento no universo, esse alguém é o Verbo encarnado: Jesus Cristo.

2-A ira divina é santa. Ela é o reflexo da Sua justiça. Portanto, dizer que Cristo, ao mesmo tempo em que se ira e condena, o faz em amor ao objeto da Sua ira e condenação é, no mínimo, uma contradição. O problema é que se espalhou pelo mundo que Deus ama a todos, quando, na verdade, Deus ama aquele que o obedece, aquele que cumpre os Seus mandamentos, aquele que foi regenerado e lavado no sangue do Seu Filho amado, os eleitos, pelo qual morreu e se entregou para que fossem salvos. Quem se atreverá a rogar por aquele que Deus condena? Ao fazê-lo, não estará questionando a Sua justiça e a santidade? E se fazendo como ele? O “ai” de Cristo é uma acertiva inexorável, do qual não se pode escapar.

3-Deus é justo, e não pode ser questionado por ninguém. Foi o que Ele disse a Jó: “Porventura também tornarás tu vão o meu juízo, ou tu me condenarás, para te justificares?” (40.8).

O que não quer dizer que Cristo não tenha outro objetivo em mente. O alvo do Seu amor está implícito na maneira com que os condena, e desta forma, todos os eleitos lerão e ouvirão aqueles exemplos como alerta para não repeti-los, para afastarem-se deles, para condená-los igualmente, e assim, buscarem fazer exatamente o oposto do que os líderes de Israel faziam. Em outras palavras, Cristo revela-nos toda a sordidez e vilania dos fariseus e escribas, condenando-as e a eles, para que nós visualizemos o erro, saibamos do desagravo de Deus a quem os comete, e nos afastemos de suas práticas. O alvo da Sua ira é a liderança judaica e seus seguidores, o alvo do Seu amor, os eleitos (podendo ser mesmo alguns desses líderes e seguidores).

E, hoje, as coisas são diferentes? Não há milhares de estudiosos mundo afora, Bíblias em mãos, examinando-a, assim como os fariseus e escribas faziam? E, igualmente, não são guiados por suas mentes pervertidas a rebelar-se contra aquilo que dizem acreditar?

Vejamos alguns pontos:

1-Os fariseus e escribas tinham o conhecimento das Escrituras, e sabiam da chegada do Messias.

2-Cristo veio ao mundo, e os fariseus e escribas odiavam-no exatamente porque Ele se opunha a tudo o que faziam e era contrário as Escrituras.

3-Os fariseus e escribas eram “obreiros fraudulentos” (2Co 11.13) e, por isso, combatiam declaradamente o Evangelho de Cristo.

4-Eles se diziam servos de Deus, mas na verdade eram idólatras, pois faziam todas as obras a fim de serem vistos pelos homens” (v. 5). Faziam ídolos de si mesmos.

5-Não eram humildes; usurparam e usavam o título que não lhes pertencia (Rabi), considerando-se mestres, quando “um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos” (v. 8).

O quadro dos “principais” descrito pelo Senhor, em nada lhes é favorável, ao contrário, é totalmente adverso, desventurado. E muitos discípulos dos fariseus e escribas estão a andar por aí, cheios de vaidade, exibindo-se como pavões na cópula, a fim de serem vistos e engrandecidos como se fossem deuses. A ferida na qual Cristo colocou o dedo é a vergonha exposta por muitos crentes. Não apenas pastores, presbíteros e diáconos, mas muitos de nós estão inchados por todo o tipo de cobiça, de vanglória, de louvor, de adoração, ostentando títulos e honrarias usurpadas de Deus. Como aqueles à época de Jesus queriam ocupar o lugar que somente o Filho de Deus pode ocupar, muitos se iludem com as falsas promessas de que podem ser rabis modernos, mestres de uma legião de tolos e incautos.

Quem lhe deu olhos para ler? A mente para entender? O espírito para discernir? E a vontade para obedecer? Quem lhe revelou o pecado? E a salvação? Quem lhe deu a vida? Ou será que foi você que se entregou na cruz por seus pecados? Ou, onde estava quando Deus fundou a terra? (Jó 38.4).

Se atentarmos, veremos que nada do que temos é fruto do nosso esforço, ou pode ser determinado por nossa vontade, ou aconteceu por mérito. Provavelmente, haverá no mundo pessoas muito melhores do que eu, muito mais inteligentes, sábias, talentosas e dispostas, mas de uma forma inexplicável, Deus escolheu-me para Si e não eles. Por isso, ninguém será justificado por obra de justiça que houver feito (Tt 3.5-6), "para que nenhuma carne se glorie perante ele" (1Co 1.29), e "aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1Co 1.31). Paulo está nos dizendo que tudo é pela graça e misericórdia de Deus, que nada do que somos ou temos é fruto nosso, mas gerado em nós por Cristo. Então, por melhor que eu seja, por mais bem situado social e financeiramente, por mais poder e prestígio que tenha, nada disso foi-me dado por mérito, mas por graça; o que me torna duplamente responsável pela forma como decido usar o que me foi entregue por Deus. Fazendo-o sabiamente, guiado pelo Espírito, serei instrumento de justiça, do contrário, de injustiça. E toda injustiça será castigada, condenada, parafraseando Nelson Rodrigues.

Vem à mente a advertência:

“Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt 7.20-23).

Sem entrar na análise profunda deste trecho, o que fica evidenciado é que, mesmo muitos sendo usados para a obra de Deus, não são de Deus. Fazem-na, estão nela, cumprem uma obrigação específica determinada por Deus, como todos no mundo, crentes ou não fazem, mas não estão entre os escolhidos. O que revela, mais uma vez, o poder divino de fazer o que quer, como bem quer, com quem quer, porque Ele é o padrão máximo de soberania, justiça e santidade, e para que em tudo o Seu nome seja glorificado. Ninguém pode enganá-lo, ou rir-se dEle, antes é Ele quem ri do tolo, porque “o tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração” (Pv 18.2).

No fundo, os antigos e os novos fariseus orgulham-se tanto das suas obras, como uma espécie de manifestação das suas bondades pessoais, como o fruto da aplicação e esmero de uma vida voltada para o serviço religioso e, com isso, esperando serem justificados perante Deus, corrompem todo o bom ensinamento doutrinário que porventura venham a realizar. Ele está tão seguro de si mesmo, tão cheio de si, que mesmo desejando glorificar a Deus o que consegue é glorificar-se, revelando todo o caráter vaidoso e soberbo que possui (dissimuladamente), e o desprezo para com tudo o que não seja ele mesmo (Lc 18.11-12). Ele é um fraudador da fé cristã, um embuste, uma vergonha para a igreja, pois diz o que está em conformidade com as Escrituras, mas age diametralmente oposta a elas (2). Está tão orgulhoso de suas obras (apontar os erros alheios), ensimesmado com seus dotes e atributos, com o destaque e proeminência alcançados, que é incapaz de acusar em si mesmo os pecados que acusa nos outros. Em suma, é o desobediente crônico; finge que é, mas não é; faz o que não deve quando devia fazer o que diz fazer; é odioso ao criticar o pecado de outrem, talvez por se ver nele e no seu pecado. Ele é um obstinado; perseverante na teimosia.

Paulo o descreve assim: “Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2.21-23). Esse é o pior inimigo da verdade, porque ainda que a proclame e muitas vezes aceite-a intelectualmente, é incapaz de praticá-la, prefere viver a mentira deslavada, e terminar por blasfemar, com suas atitudes, o nome de Deus entre os incrédulos (Rm 2.24).

Como diz o pregador: “vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Ecl 1.2).

Mas ao que “a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mt 23.12). Porque quando tivermos a mente e o sentimento que houve também em Cristo, o qual se humilhou a si mesmo, e esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, achado na forma de homem, e foi obediente até a morte na cruz (Fl 2.5-8), então seremos “irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo” (Fl 2.15).

Retendo a palavra da verdade (o fariseu não consegue fazê-lo), humilhar-se significa considerar os outros superiores a si mesmo, não atentar para o que é propriamente seu, mas também para o que é dos outros (Fl 2.3-4). Para que isso aconteça, é necessário que Cristo cresça em nós, enquanto diminuímos e finalmente morremos para nós mesmos (Jo 3.30; Gl 2.20); pois o nosso velho homem foi crucificado com Ele, para desfazer o corpo do pecado, a fim de que não sirvamos mais ao pecado (Rm 6.6).

Cristo nos deu o exemplo: o maior se fez menor para ser exaltado soberanamente.

Notas: (1) Ainda que não diretamente, aqui encontramos o princípio da autoridade. Os líderes, mesmo afundados em suas corrupções, foram instituídos por Deus, e, portanto, não haveria por que os judeus desprezá-los naquilo em que falavam. O Senhor não mandou que o povo se rebelesse contra eles, que os destituíssem dos seus cargos, e colocassem outros mais honrados para exercê-los. Logo, o crente não é chamado à revolução. Não há componentes revolucionários no Evangelho, no sentido de algo afrontoso, insubordinado, desrespeitoso e injusto. O fato dEle ordenar que não praticassem os mesmos atos dos líderes, demonstrava a necessidade de se ter sabedoria, discernimento, santidade, a fim de não se contaminar com o pecado. Em nada nos autoriza ao desrespeito à lei, às normas que somente existem porque cumprem o propósito soberano de Deus; a menos que se oponham à expressa vontade divina. Como Pedro disse, "mais importa obedecer a Deus do que os homens" (At 5.29).

(2) Note-se que estou a falar de um fariseu moderno em um ambiente doutrinariamente ortodoxo, onde os princípios bíblicos estão preservados; já que qualquer tentativa de revelar esse erro em um ambiente corrompido doutrinariamente não surtiria nenhum efeito.

sábado, 29 de agosto de 2009

o evangelho caquético do deus defeituoso













Por Jorge Fernandes

Por que as pessoas querem excluir da natureza divina a ira e a justiça? Por que os textos bíblicos onde esses atributos são manifestados encontram-se reclusos, como se não fizessem parte do Evangelho e fosse proibido exibi-los? Por que limitar Deus àquilo que mais agrada o coração do homem, de forma que lhe traga um falso consolo? Por que Cristo é muitas vezes estigmatizado como se fosse um molenga, não-viril, um “maria-vai-com-as-outras” que aceita tudo de todos? Por que querem que Ele negue-se a Si mesmo em favor do homem? Por quê? Por quê?... Compartimentá-lO, desagregá-lO de Si mesmo é uma tática maligna de desprezar e rejeitar aquilo que Ele é. Infelizmente, entre os cristãos, não parece haver uma unidade quanto ao verdadeiro Deus, quanto ao entendimento da sua natureza, quanto ao que nos foi revelado na Escritura; e a maioria se sente constrangida quando tem de dar explicação a uma passagem em que Deus pune, disciplina, condena.

É como se tivéssemos arrancado páginas e mais páginas da Bíblia a fim de não sermos incomodados com situações violentas, mas que revelam o poder soberano e justo dEle. Não é essa atitude uma violação à natureza divina? O arrogante desprezo de não reconhecer a superioridade da Sua revelação em detrimento da nossa reles concepção? Acontece que cristãos fracos têm pregado doutrinas fracas em que um deus fraco é incapaz de atitudes soberanas; ao contrário, esses cristãos raquíticos proclamam um evangelho caquético de um deus defeituoso e imperfeito que não ultrapassa a extensão da mente obliterada pelas trevas.

Como Marcião e tantos outros heréticos, os pseudocristãos estão mais preocupados em não se envolverem em dificuldades, em facilitarem o seu trabalho, em adequarem a mensagem do evangelho ao estado servil, ao utilitarismo em que muitos ministérios reduziram a Escritura, como o meio de se atingir os seus objetivos iníquos e fraudulentos. No fundo, é um evangelho covarde e bajulador, seguido por uma turba de tolos e impenitentes que, não ingenuamente, estão preocupados em atender os seus próprios interesses, crendo que a pregação espúria de um falso cristianismo será a sua “taboa de salvação” financeira, emocional e espiritual. São cegos guiando cegos até o precipício mais tenebroso da ignorância, da desfaçatez, da estupidez, e da malícia diabólica. Não há inocentes, são todos culpados dos piores pecados contra Deus, enquanto mantêm bilhões manietados por uma discursividade cativa ao impudor satânico.

O objetivo é um só: glorificar o homem, e usar o nome do Senhor como uma espécie de muleta na qual os seus infames propósitos de poder, glória e riquezas realizar-se-ão. Não há nada de espiritual neles, apenas a carne gritando como louca, seduzindo a si mesma, na manifestação mais doentiamente possível da corrupção, rebeldia e irregeneração mental do homem caído.

Mesmo servos fiéis, mentes brilhantes, teólogos, pastores, missionários e outros trabalhadores dedicados à seara de Cristo, são apanhados na teia maligna de distinguir os atributos divinos em dois grupos: os facilmente detectáveis, e com os quais se tornará menos difícil manter um discurso agradável aos ouvidos impuros (questões como o amor, a bondade e benignidade divinas são reciclados de maneira tão antagônicas à revelação escriturística que se tornam em distorções da Sua natureza), e aqueles com os quais se deve manter distância, quando muito citá-los rapidamente a fim de não serem notados pelo ouvinte, e nem seja necessário dar explicações que denunciarão a inclinação viciosa da pregação. Poder-se-ia chamar de negligência, omissão, se não fosse um estratagema maroto e cínico de se ocultar a verdade.

É por isso que se está a criar uma geração de crentes fracos, incapazes de responder ao mundo a razão da fé cristã. Assim, se limitam a ecoar os ditames seculares da tolerância, da contemporização, quando a sociedade é completamente intolerante e intransigente quanto a Cristo e Sua palavra.

Por isso, eles não aceitam Cristo como a única verdade, como o único caminho, como a única vida. Por isso, não aceitam o Cristo irado, vingador, que julgará e condenará os pecadores impenitentes. Por isso, não aceitam Cristo como único Rei, Senhor e Salvador, porque, desta forma, teriam de se sujeitar ao Seu reinado e senhorio. Por isso, se criou uma imagem de um Cristo subserviente, adocicado, meigo até ao nível da mais pavorosa demência. Por isso, não querem ser confrontados pela Palavra, mas criarem a sua própria interpretação falaciosa, conduzindo-a até aquele cantinho onde o homem jaz morto; onde a última pá de terra é jogada sobre o seu cadáver.

Alguns gnósticos retrataram Cristo assim, como um ser espiritual neutro, inofensivo, abestalhado. Católicos e espíritas descrevem-no quase como se fosse uma donzela indefesa; outros, como um lunático. Há os que O pintam como um homem comum, sujeito às fraquezas e passível de erros. Há os que ainda O vêem como um perigoso potencial, um revolucionário temível. Há os que simplesmente O ignoram, e ainda aqueles que O desdenham. Contudo, Paulo alerta: "Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gl 6.7); mas os tolos não ouvem avisos nem os consideram. São rebeldes obstinados, aos quais está destinada a condenação eterna, e, ainda assim, mesmo no inferno, considerar-se-ão certos em sua inútil revolta.

A verdade é que Cristo é o Senhor de todas as coisas, o Deus Vivo em que “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9); o Senhor dos Exércitos (Sl 84.3), o Guerreiro (Ap 19.13-16) , o Justo (Tg 5.6), o Unigênito Filho Amado de Deus (Jo 1.18), o Criador de todas as coisas sem o qual nada existiria (Jo 1.3), o Salvador (Tt 3.6) e Juiz (At 10.42). Será que estas qualidades anulam o Seu amor, bondade, benignidade, santidade e retidão? NÃO! Todas elas são atributos divinos, e não podem ser repartidas como se possível fosse setorizá-lO. Qualquer tentativa de separar a unidade divina, puxando-a para um lado ou outro, é desqualificá-lO, reduzi-lO a um arremedo daquilo que Ele mesmo revelou-nos. É o pecado supremo de não glorificá-lO; de esquecer, não temer, nem servi-lO como Deus zeloso, cuja ira se acende contra todo o rebelde. Nenhum profeta ou apóstolo teve a audácia e insolência de minimizá-lO, antes foram guiados pelo Espírito Santo na coragem e obediência em descrevê-lO assim como Ele é, assim como se deixou mostrar e quis se revelar.

Como sempre digo, a verdade não precisa ser defendida, mas proclamada (porque anunciar a verdade é a forma de melhor defendê-la do embuste, ao revelar-lhe a artimanha e o seu artificioso ardil). Deus não precisa que o defendamos de supostos ataques humanistas e das investidas diabólicas, mas Ele precisa ser proclamado como a Bíblia O revela: Deus Todo-Poderoso, soberano e Senhor de tudo e todos, não uma bijuteria sobre a mesa da qual nos lembramos apenas quando se vai tirar o pó. De outra forma, como os eleitos serão regenerados e abandonarão as falsas doutrinas? E como os santos serão feitos à imagem perfeita de Cristo?

Ocultar ou rejeitar partes da revelação divina em nada afeta a Sua natureza e glória, mas nos coloca em “maus-lençóis”, ao tornar-nos odiosos diante dEle, que não tem por inocente aquele que tomar o seu nome em vão (Ex 20.7).

Que se pregue o Evangelho da verdade, em sua totalidade, não aquilo que pode ser conveniente e falsamente interpretado como a completude da revelação, quando não passa de um fragmento descontextualizado em que uma mínima parte verdadeira é reunida a uma maioria mentirosa e, assim, utilizada para construir e validar um complexo falacioso.

Deus é Todo-Poderoso, e não há nada nEle que O envergonhe, porque é santo, justo e o único Senhor. Da mesma forma, não pode haver nada que nos escandalize na Escritura (refiro-me a Deus, Sua natureza, propósitos e ações, pois, o diabo, seus anjos e os homens são completamente reprováveis e escândalosos), antes rendamos honra e glória ao Deus que está diante de nós, e pelo qual somos chamados a confiar no Evangelho como a Sua fiel revelação.

E livremo-nos definitivamente do evangelho capenga do deus falseado, para se viver a verdade santa e objetiva da Palavra do Deus Vivo.

domingo, 23 de agosto de 2009

AMOR & VERDADE













Por Jorge Fernandes


Primeiro, vamos definir alguns termos segundo o dicionário Priberan:


Amor(1) - 1.Sentimento que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição ou !atração.

2. Paixão atrativa entre duas pessoas.

3. Afeição forte por outra pessoa.

4. O próprio ser que se ama. (Usado também no plural)

Verdade(2) - 1. Conformidade da ideia com o objeto, do dito com o feito, do discurso com a realidade.

2. Qualidade do que é verdadeiro; realidade; !exatidão; coisa certa e verdadeira.

3. Por ext. Sinceridade, boa-fé.

4. Princípio certo; axioma.


Agora, pense um pouco: é possível haver amor sem verdade?... A maioria, certamente, dirá que não. É impossível conciliar o amor em meio à mentira, a hipocrisia, ao engano. Intelectualmente a resposta é bem mais fácil de obter. Mas, e na prática? Será que vivemos a verdade quando dizemos andar em amor?


Hoje em dia, é muito comum se ouvir dizer: irmão, deixa de ser crítico, o importante é o amor. Ou, devemos amar os nossos irmãos ainda que estejam no erro. Ou, Deus amou o mundo, por que não podemos amá-lo também? Ou, julgar é pecado!... E segue-se uma lista de expressões tão fúteis quanto incoerentes quanto mentirosas, no sentido de que se é possível caminhar em amor com alguém que transita no erro sem apontar-lhe o erro, ou pior, fazendo “vistas grossas” ao engano, como se ele não existisse, ou fosse irrelevante.


O amor, por si só, é inclusivo. Posso amar uma pessoa ainda que ela não me ame, e posso ser amado por alguém sem que eu o ame. Porém, a verdade é exclusiva, ela não se juntará ao erro ou engano, mas o revelará, a expor-lhe o falso caminho. Por isso satanás se empenhou em destruir a verdade no coração do homem. Desde o Éden, o seu trabalho incessante é com o objetivo de desqualificar, relativizar e descontextualizar a verdade, ao ponto em que ela seja desfigurada, descaracterizada e, por fim, inexista como um princípio racional e moral; sendo removida e substituída pela irracionalidade e pela má-fé ardilosamente tramada. Por isso o mundo não quer saber de absoluto, nem de verdade, pois, onde ela estiver a fraude ficará evidenciada, e será desmascarada; e a mentira se torna a opção mais servil, favorável e multifacetária aos intentos do seu autor.


Biblicamente o que é o amor? Segundo Paulo, “O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm 12.9-10)... "O amor... não folga com a injustiça, mas folga com a verdade” (1Co 13.6).


Segundo Cristo, “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim... Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” (Jo 14.6, 21).


Segundo João, O amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele" (2Jo 1.6).


Antes de definir o amor como os dicionários fazem a Bíblia revela-o na manifestação dos atos divinos. Mais do que explicar, ela demonstra-o. Mais do que classificá-lo, ela exprimi-o não somente por palavras, mas por gestos. Ao invés de ser um simples postulado, ela o comprova factualmente; e a prova maior é que Deus entregou o Seu Filho Amado por amor dos eleitos. Da mesma forma, a vida cristã não se resume a um emaranhado de teorias desconectadas da realidade, a vida cristã está voltada para a prática muito mais do que para as especulações. Não que a teoria ou doutrina seja irrelevante. Não é isso. Sem uma base doutrinária sólida e biblicamente fundamentada, a vida cristã se revestirá de múltiplos subjetivismos, e qualquer um fará o que lhe der “na telha”, segundo aquilo que julgar melhor. Mas esse julgamento em nada terá a ver com a verdade, logo, não é objetivo, nem santo, nem justo, pois não procede de Deus. A verdade não admite metades, nem tons cinza, nem possibilidades, nem pode ser amoldada ou ter a sua ordem transigida. Como disse várias vezes, não há muros onde subir e no qual se encontre a verdade. Ela é única, monopolizadora, polarizadora, opondo-se e suprimindo toda a mentira.


Cristo é a verdade, “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32) de todo engano, do pecado, que é a mentira impossível de que se pode opor a Deus impunemente; de que a desobediência não será castigada; de que pouco importa a maneira como irei servi-lO, desde que o faça piedosamente, ainda que essa piedade não passe de um erro em si mesma, quando ela se disfarça de devoção, mas uma devoção cujos fins, ainda que aparentemente bíblicos, não são justificados nem se enquadram nos padrões determinados por Deus. Há uma expressão, “pia fraude”, que indica exatamente uma mentira ou engano para um fim piedoso. Portanto, o padrão de obediência a Deus não está na piedade, mas na verdade que levará à piedade. Qualquer forma de amor será vazia se não estiver firmada na verdade. Posso dizer que amo uma pessoa e vê-la caminhar seguramente para o inferno sem admoestá-la quanto ao caminho que a levará à perdição. Posso dizer que a amo e ainda assim não me sentir incomodado por seus pecados. Isso, invariavelmente, indicará que não estou na verdade, ou ela em mim, pois, se estivesse, não me conformaria com a hipótese de alguém infringir deliberadamente a santidade divina pela dissolução. Se não me importo com o pecado alheio, não me importo com os que pecam, nem com Deus que abomina o pecado e o pecador. Então, o pseudo-amor não passará de um artifício para justificar a omissão e o conluio com o pecado do próximo (o que significa pecar conjuntamente com o outro pecador); e o crente condescendente não passará de um traidor, um escândalo para tudo o que é um cristão bíblico. O amor implicará no desejo de que as pessoas andem na verdade, amem-na, arrependam-se dos seus pecados, odiando-os com o que há de mais santo em seu íntimo, assim como Cristo (Hb 1.9).


Tentar justificar qualquer atitude ou postura com base naquilo que não é bíblico, é uma tentativa de sustentá-lo através do engano. A mente humana é prodigiosa em se autovalidar, e o que muitos de nós têm feito é exatamente isso, dar chancela a algo que não procede da vontade de Deus, mas unicamente tem por significado nos justificar diante de nós mesmos e, de certa forma, diante da Igreja e de Deus. Usar o argumento de que tal procedimento não está proibido expressamente na Escritura, não quer dizer que ele seja autorizado. Nós ainda não nos acostumamos completamente com a subserviência, o sujeitar-se ao nosso Senhor, e queremos propagar uma liberdade que não temos. Onde está escrito que o escravo tem alguma liberdade? Cristo nos comprou com o Seu sangue para nos libertar do pecado e da maldição do inferno, para habitarmos o seu Reino de glória, e para que tivéssemos uma íntima comunhão com Deus. Mas, em momento algum, ouve-se dizer que temos liberdade para fazer isso ou aquilo à revelia da Escritura. A menos que não a consideremos nossa regra de fé. A menos que a desprezemos, não a julgando como a fidedigna palavra de Deus. A menos que falemos da boca pra fora, porque não recebemos o amor da verdade para a salvação (2Ts 2.10). A menos que o nosso coração esteja tão arraigado às coisas do mundo, que a melhor das atitudes é a negligência e a desobediência. Seria isso uma prova de amor ou de desamor? Não seria o mesmo que buscar justiça na injustiça? Cristo em Belial? Fidelidade na infidelidade? Deus entre os ídolos? (2Co 6.14-16). Ou, para ser mais claro ainda, verdade na mentira? Contudo, fomos gerados pela palavra da verdade, para não errarmos, porque toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação (Tg 1.16-18).


Mas julgamos que Deus é mutável, e se é, não se importará em que alteremos um pouquinho aqui e acolá o que nos revelou expressamente, ou mesmo com aquilo que está implícito, mas que pode ser entendido como a Sua manifesta vontade. Algo definitivamente reprovável é quando se quer adaptar a Escritura, o padrão máximo e perfeito da vontade divina, ao padrão mínimo e sedicioso da vontade humana. Em nome das possíveis brechas que acreditam haver na Bíblia (outra corrupção de suas mentes), querem preencher as supostas lacunas com o que de mais desonesto e mesquinho podem gerar.


E gritam a plenos pulmões: “Amor! Amor! Amor!”, enquanto o verdadeiro amor será manifestado na obediência a quem se ama, na forma como se sujeitará e honra-lO-á. Palavras como edificar, crescer, santificar e glorificar só significarão alguma coisa se estiverem em acordo com a obediência. Sem obediência serão apenas expressões “ao léu” que, de fato, nada representam, nem têm sentido.


Sem o menor pudor, de uma forma maligna, tem-se abandonado qualquer disposição de obediência à Palavra, revelando o nosso desprezo; envolvendo-nos em uma falácia espiritual em que se camufla amorosa, piedosa, e não mentirosamente a verdade, quando se tem especializado no mais sórdido padrão de desobediência, e a verdade se tornou em um mero detalhe, onde, dizem, o que vale é o amor. Mas não é essa uma forma dos homens deterem a verdade em injustiça? (Rm 1.18).


O salmista escreveu: "A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre... A tua palavra é muito pura, portanto, o teu servo a ama" (Sl 119.160, 140).


O amor, como Paulo diz, é o maior de todos os dons. Usá-lo como escudo para a desobediência além de desamor é pecado. O amor verdadeiro não é inimigo da verdade, nem a verdade inimiga do amor. Eles se complementam, são indissociáveis, não andam separados. Quem espera ou acredita na desagregação entre o amor e a verdade é o crédulo no impossível: crer na mentira do Evangelho.


Mas aquele que está na verdade não teme nem precisa temer o amor, porque o amor perfeito lança fora todo o temor (1Jo 4.18); "de sorte que o cumprimento da lei é o amor" (Rm 13.10).


Nota: (1) O principal verbo hebraico para amor é “aheb”, enquanto para o grego há várias palavras: “agapao”, “phileo”, “eros”, “philadelphia”, etc. Resumindo, do ponto de vista bíblico, a palavra amor significa “a comunhão entre as pessoas baseadas em atos de auto-sacrifício. Tal amor é a bondade voluntária e deliberada, estendo-se até mesmo aos inimigos por quem não se tem qualquer afeto pessoal” (Dic. Bíblico Wycliffe).

(2) Do heb. "emuna", e do grego "aletheia".

terça-feira, 11 de agosto de 2009

SUA BÍBLIA MERECE CONFIANÇA?
















Por Jorge Fernandes


Há algo que realmente não entendo, e do qual não li, até agora, nenhuma explicação plausível para o sua veracidade. Os exegetas e hermeneutas reformados(1) sempre afirmam que a Escritura é inerrante, divinamente inspirada e infalível, contudo, esse conceito não é corroborado em relação às cópias e às traduções. Algumas simples perguntas:
Primeiro, se as cópias e traduções não são infalíveis, como saber se o original é?... Talvez, respondam: o texto bíblico afirma que a Escritura é infalível... Tudo bem, concordo. A Escritura diz isso de si mesma. Mas se o que temos são cópias e traduções do original, o qual já não existe, é possível inferir então que nem tudo que está escrito na Bíblia é correto, certo? Já que elas (as cópias) não são infalíveis, inerrantes e divinamente inspiradas, como saber se o que está escrito é certo ou errado?
Segundo, outros diriam: O volume de cópias contendo um mesmo princípio e texto revela que ele é verdadeiro... Mas se as cópias não são infalíveis, não é possível ao erro ser copiado inúmeras vezes e constar de inúmeras cópias, permanecendo como erro, a despeito da quantidade de provas da sua existência?
Terceiro, Deus, o qual garantiu a infalibilidade, inerrância e inspiração da Bíblia não seria poderoso o suficiente para "garantir" que as cópias(2) também permanecessem tal como os originais, e fossem fielmente transmitidas nos séculos vindouros? Por qual motivo Ele não preservaria essas qualidades às cópías, visto que elas chegariam ao Seu povo, no futuro, como a expressão da Sua revelação ao homem?
Muitos teólogos e estudiosos dizem que apenas os originais ou autógrafos são inerrantes, infalíveis e divinamente inspirados. Porém, como é possível que se saibam inerrantes, infalíves e divinamente inspirados se não existe um só autógrafo na atualidade para comprová-lo? Existindo apenas cópias desses originais, as quais, para eles, não detém as características dos autógrafos, o que teríamos seria a Palavra fiel de Deus? Em outras palavras, o que eles defendem é a impossibilidade de se crer naquilo que as cópias dizem, ainda que o digam dissimuladamente; enquanto outros, descaradamente, confirmam essa falsa premissa.
Pelo que consta, apenas o pr. Paulo Anglada(3) entre os reformados, sustenta a fidelidade das cópias, as quais mantêm as mesmas virtudes dos originais. E junto-me a ele em coro. Não é possível eu pegar a minha Bíblia e lê-la, acreditando ser a Palavra de Deus, sem que ela seja inspirada, inerrante e a infalível revelação do próprio Deus. Do contrário, seria um livro qualquer, e não a regra de fé e vida do cristão. Como os liberais e emergentes asseguram: seria apenas um livro moral entre tantos livros morais existentes.
Portanto, para mim, permanece um enigma essa declaração dos exegetas reformados (pelo menos, parte deles), e os seus argumentos levam-nos a apenas uma constatação: a Bíblia que lemos pode não ser a Palavra de Deus. E isso, no mínimo, é um absurdo, visto que eles mesmos são guiados e orientam outros a guiarem-se por ela.
Pode as cópias conterem algo que o texto original não contém? Não. A própria palavra de Deus garante que a Bíblia é a expressão da revelação divina, e de que Ele preservá-la-ia fielmente contra qualquer corrupção (Dt 4.2, Jr 1.12, Sl 119.160, Mt 24.35,1Pe 1.23-25).

Desde a igreja primitiva, por exemplo, sabe-se que as cartas paulinas eram copiadas e lidas em várias igrejas em continentes diferentes (circulavam entre as inúmeras igrejas), e nem por isso pairou qualquer dúvida quanto à sua legitimidade.
Para mim, é apenas mais uma contradição humana entre tantas que os religiosos evangélicos têm. E o que fica, ao fim, é a Escritura infalível, inerrante, poderosa e inspirada divinamente: a palavra do bom e gracioso Deus(4).

OBS: (1)Não é uma crítica exclusiva aos reformados, nem um tom de criticar os reformados. É que o crente, reformado ou não, no intuito de, muitas vezes, garantir a veracidade de algum dogma ou conceito, se cerca de "garantias" humanísticas provenientes em sua maioria da ciência, em especial da metodologia, arqueologia e filosofia que, ao invés de assegurar, confunde aquilo que é explícito na revelação escriturística. Os reformados acertam na maioria dos seus princípios, mas não dá para concordar naquilo em que erram. É pouco, mas ainda assim, são erros. E o que falar dos batistas (e sou um batista), dos pentecostais e neo-evangélicos?

(2)Interessante que os textos utilizados para as diversas traduções até o séc XIX foram o Texto Massorético hebraico e o Textus Receptus grego (Texto Majoritário; nas língua originais), os quais perfazem mais de 98% das cópias preservadas ainda hoje; onde há uma impressionante uniformidade textual e, historicamente, foram desde o princípio recebidos pela igreja como cópias fiéis do texto original.

A partir da metodologia "crítica" adotada por Westcott e Hort, cuja base é simplesmente a de “confiar” na cópia mais antiga, na cópia mais próxima do original, mormente os códices Sinaítico e Vaticano (texto eclético; menos de 2% das cópias), o espírito cientificista e racional tem procurado levar ao descrédito o Texto Majoritário.

Somente entre os textos ecléticos há mais de 3.000 diferenças entre si, e muito mais em relação ao Texto Majoritário (o qual, como já disse, tem uma uniformidade maravilhosamente admirável).

(3)O pr. Paulo Anglada é pastor presbiteriano da Igreja Presbiteriana Central do Pará, proprietário da Knox Editora, e autor de vários livros. Em especial, abordando a questão escriturística, indico o ótimo livro “Sola Scriptura” (leia o meu comentário ao livro AQUI), Editora Os Puritanos, onde ele defende a suficiência da Bíblia a despeito da descrença liberal (e às vezes ortodoxa) dos defensores do texto crítico, também conhecido como movimento da Crítica-Textual ou Alta Crítica.

(4)Entendo que, como as cópias, Deus preservou as traduções que se baseiam nas cópias igualmente preservadas. O texto eclético, de onde se originou a Almeida Atualizada, Almeida Século XXI, NVI, e a aberração chamada NTLH, mostra a sua “fragilidade” pela quantidade de erros (p.ex., o papiro P66 apresenta uma média de dois erros por versículo), pelo número reduzido de cópias (demonstrando sua pouca ou nenhuma utilização pelas igrejas), e o próprio descrédito com que a igreja o tratou (o Códice Sinaítico foi "salvo" por pesquisadores russos quando estava prestes a ser incinerado no mosteiro ao sopé do Monte Sinai em 1859).

Sabemos também que muitos heréticos dos primeiros séculos corromperam e “reescreveram” parte da Bíblia, como Marcião, por exemplo; os quais, bem como suas doutrinas, foram rejeitados pela Igreja Primitiva, assim como os textos apócrifos. Fica a pergunta: não é estranho que após dezenas de séculos no ostracismo, somente pouco mais de cem anos atrás o texto eclético ganhou “status” de palavra de Deus?.

Assim, creio que a tradução fiel ao Texto Majoritário é a realizada por João Ferreira de Almeida, disponível no Brasil como ACF (Almeida Corrigida e Fiel, editada pela SBTB); e, desta forma, Deus preservou infalivelmente a Sua palavra em língua portuguesa.

domingo, 2 de agosto de 2009

HUMILHAI-VOS!



















Por Jorge Fernandes


Tenho meditado e escrito sobre a necessidade da separação entre luz e trevas. Ela ocorrerá a despeito da nossa disposição em tentar conciliá-las. Novamente, fui confrontado pela Palavra de Deus; a bendita palavra revelada pelo Senhor, dada-nos para que, por meio dela e da ação do Espírito Santo, sejamos santificados, e cada dia mais semelhantes a Cristo. Ao final, esse é o principal e, porque não, único objetivo dos crentes nesta vida: ser como é o Senhor. Não por algum mérito que haja em nós, nem por algum esforço nosso, mas unicamente pelo poder e a graça de Deus de nos transformar de miseráveis pecadores em santos redimidos por Seu Filho Amado.
O verso ao qual me referi está em Tiago 4.9:
"Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza".
O impacto ao lê-lo foi o de cair e rolar escada abaixo vinte andares até o fosso; foi o de pular do avião sem pára-quedas; foi como se mil floretes perfurassem-me ao mesmo tempo; senti-me tão miserável em toda a minha pecaminosidade que os olhos marejaram, e lágrimas rolaram pelo rosto. A reação foi a de ter os ossos quebrados, esmagados, então, curvei-me, quedei-me contrito, em silêncio, diante da santidade divina, e da minha iniquidade.
Foi quando lembrei-me de Davi: "Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista... Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" (Sl 51.3-5).
Foi quando lembrei-me de Paulo: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço... Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7.18-19;24).
Estendido por toda a Escritura, a leitura do verso colocou-me no devido lugar: de inimigo de Deus; porque a inclinação da carne é morte, e inimizade contra Ele; não podendo agradá-lO, pois não está sujeito à Sua lei, nem, em verdade, o pode ser (Rm 8.6-8). A amizade do mundo é inimizade contra Deus, e quem "quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tg 4.4).
Como disse outras vezes, não há tons cinzas na Escritura. Ela é preta e branca. Não há como subir no muro e tentar contemporizá-la, nem mesmo ficar alheio a ela. A verdade, mais cedo ou mais tarde, estará diante de nós; se em Cristo, nesta vida, será para salvação; se no Dia do Senhor, quando julgará a humanidade, na vida eterna, será para a condenação de todo aquele que não crê no Filho como a verdade. Ali não haverá chance de reconciliação. A oportunidade é agora, o dia se chama Hoje, "para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (Hb 3.13).
As relações escusas que temos com o mundo e o pecado são as nossas misérias. Ainda que ríamos da manhã à noite; ainda que gozemos todas as benesses que o mundo nos proporciona; ainda que finjamos ser o que não somos, usando o nome de Cristo para a dissolução, para pecar livremente como sinal de blasfêmia; ainda que a nossa loucura nos leve a acreditar em uma eternidade isenta de punição, um mundo em que o deus complacente, criado a nossa imagem e semelhança, perdoará todas as nossas iniquidades sem que haja contrição, como se ele estivesse obrigado, forçado a fazê-lo, sujeitado ao poderio humano; ainda que vivamos um delírio contínuo e continuado, gastando energia, recursos e tempo em nossos constantes deleites; ainda que o sonho nos mantenha entorpecidos, e o medo de acordar nos faça supor que o pesadelo pode ser adiado indefinidamente, contudo, virá inexorável; ainda que se acredite na salvação sem regeneração; tudo isso é motivo de lamento e choro, o qual nos colocará frente a frente com o Deus santo, e toda a nossa imundícia ser-nos-á exibida. Se ao contrário, gastar-nos ainda mais em nossos deleites, o lamento e o choro serão eternos, no fogo inextinguível do inferno. É melhor chorar e lamentar agora, enquanto há tempo, enquanto o dia do Juízo ainda não chegou.
Bem-aventurado quem tem o seu pecado revelado por Deus, se arrepende, e humilha-se diante do Senhor, pois, agindo assim, Ele o exaltará (Tg 4.10). É algo que venho meditando e escrevendo há tempos: o princípio da santidade é a obediência. E obediência significa sujeição, rebaixar-nos diante de Deus. Muitos dirão: mas isso é indigno! Não se deve rebaixar, pois a vontade de Deus é nos exaltar. Essa visão é o resultado do autonomismo. O homem quer ser exaltado sem ser rebaixado, sem ser preciso descair em seu orgulho. Mas não é o que o Senhor nos diz: "Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado" (Lc 14.11); e ainda: "Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte" (1Pe 5.6).
A desobediência, e mais do que ela, a insistência em manter-se rebelde e em oposição a Deus, revelando a arrogância do homem, somente trar-lhe-á uma única consequência: "Deus resiste aos soberbos". Em contrapartida, Ele "dá graça aos humildes" (Tg 4.6). Aos que querem e acreditam possível servir a Deus e agradá-lO sem sujeitar-se, sem obedecê-lO, sem conformar-se à Sua vontade, alerto: não se engane, nem se deixe enganar, "se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo" (Gl 6.3) e, "não erreis: Deus não se deixa escarnecer", e tudo o que o homem plantar, também colherá (Gl 6.7).
Quase tão imediatamente quanto constatar minha condição iníqua, Deus revelou-Se, colocando-me no lugar em que quis dispor-me: o de amigo, e filho adotivo em Cristo. A tristeza e o choro anteriores do pecador se converteram no gozo e alegria do salvo. Pela graça e misericórdia divina, pelo amor com que amou, compreendi toda a obra de redenção, de transformação, a qual Cristo fez e fazia em minha vida.
Foi quando lembrei-me de Davi: "Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste... Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto" (Sl 51.7-8;10).
Foi quando lembrei-me de Paulo: "Agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8.1).
Foi quando lembrei-me de Cristo: "Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja" (Jo 17.25-26).
Ainda que eu pudesse chorar todas as lágrimas do mundo, nada pode-se comparar com o júbilo e, sobretudo, a gratidão a Deus por ter-me amado tanto, sem que houvesse qualquer coisa em mim digna do Seu amor. Se havia alguma dúvida quanto ao entender o que é a graça divina, ela se dissipou completamente. Foi-me possível entender que toda a vida tem de estar em constante reverência a Ele, e a obediência é o melhor sinal de reverência. Obedecê-lO significa não conformar-se com o pecado, mas odiá-lo com todas as forças; obedecê-lO significa servi-lO, e não servir ao pecado; obedecê-lO significa mortificar os nossos membros da fornicação, impureza, afeição desordenada, da vil concupiscência, e da avareza, que é idolatria; "pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência... mas agora, despojai-vos também de tudo... e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou", porque Cristo é tudo, e em todos nós (Cl 3.5-6; 8; 10-11).
Por fim, lembrei-me de Pedro: "Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá; para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre" (1Pe 4.11).
Amém!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

AUTONOMIA DO HOMEM: REJEIÇÃO AO EVANGELHO

















Por Jorge Fernandes

Vejo pessoas saindo da igreja, trocando-as como se mudam peças de roupas. Vejo pessoas difamando outras pessoas quando, há pouco tempo, eram elogiadas. Vejo pastores cairem da semideidade (na visão de muitas ovelhas) para a completa demoniedade (na visão das mesmas ovelhas). Vejo amizades ruirem. Comunhão desfeita. Mas afinal, por que abandonar uma igreja local por outra?
Primeiro, quero dizer que nem todo o que se diz crente tem compromisso com o Corpo de Cristo. A igreja é instituição do próprio Senhor, não é algo meramente humano, ainda que seja composta por homens. Foi por ela que Cristo morreu na cruz do Calvário, resgatando-a "com seu próprio sangue" (At 20.28, Ef 5.25, 1Pe 1.18-19). Deve-se ater que a cabeça é Cristo (Ef 1.22), o Filho de Deus (Mt 14.33, Mc 1.1, Jo 3.18), a 2a. Pessoa da Trindade Santa (Jo 1.1-4, 1Jo 5.7) , "sendo ele próprio o salvador do corpo" (Ef 5.23). Portanto, desprezar a igreja é fazer o Senhor indigno.
Segundo, quais motivos podem conduzir o crente a abandonar uma igreja? Poderia citar vários que têm levado irmãos a afastarem-se do Corpo, mas não é esse o meu objetivo. De qualquer forma, indicarei dois casos (poderia ser apenas um, dada a sua correlatividade), os quais parecem mais rotineiros:
1- Pregação: muitos irmãos se sentem incomodados quando são alvos da pregação. Quando digo alvos, não quero dizer que o pastor, deliberadamente, prega especificamente para um ou mais irmãos (existem os que assim agem). Se é-se filho de Deus, então, o filho é o alvo da correção do Pai, o qual usará seus ministros para exortar, repreender, disciplinar, como está escrito: "o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho" (Hb 12.6). A pregação é o instrumento divino para que o pecador seja confrontado pela santidade de Deus e, assim, abandone o espírito de iniquidade. Porém, o que acontece na maioria dos casos? O crente arrepende-se? Desvia-se do mal? Infelizmente, muitos estão inchados pelo orgulho e vaidade, e o que ocorre é que, ao invés de se ouvir a voz de Deus, o crente irá, se não tirar satisfação com o pastor, simplesmente, abandonar a igreja em favor de outra menos "legalista" (cuja palavra tem adquirido significados que podem abranger uma gama espetacular de sentidos, quase sempre, improcedentes).
2- Disciplina: Diretamente ligada ao item 1, as igrejas que aplicam a disciplina bíblica são também alvos dos vários sentidos contradizentes da palavra "legalismo". Novamente, ao invés do crente entender que o objetivo da disciplina é, primeiramente, o arrependimento do pecador e sua reconciliação com Deus (Mt 18.15-17), ele vê a igreja como um organismo tirânico, despótico, destituído de amor fraternal. Mas é exatamente o contrário. A igreja, por amor a Deus e ao membro, tem o dever e a autoridade divinas para corrigi-lo. Porém, o disciplinado vê, unicamente, o seu orgulho ferido, e insuflado pela vaidade, tem "cauterizada a sua própria consciência" (1Tm 4.2). Contudo, "se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos" (Hb 12.7-8).
Interessante como Paulo co-relaciona os que cometem heresia/pecado com os que defendem a fé: "Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós" (1Co 11.18-19). Deus não escolheu plantar na igreja apenas o trigo, há também o jóio; não somente as ovelhas, mas também os bodes; para que, através dos bodes e do jóio fique manifesto quem é trigo e ovelha. Ora, se não há os defensores da verdade, se não há vozes que se levantem contra a injustiça, todos são mentirosos e injustos; se não são, mas apenas consentem com os que são, e conhecendo o juízo de Deus, igualmente são dignos de morte (1Rm 1.32).
Quanto ao incrédulo na disciplina bíblica, como autoridade investida por Deus para o arrependimento e o retorno à verdade, basta consultar os seguintes textos, dentre muitos, além dos já indicados: 1Co 5.4-5, 13; 2Ts 3.6, 14; Tt 3.10.

AUTONOMIA: CADA UM POR SI
Estes dois exemplos refletem claramente a quantas anda a vida cristã. O secularismo injetou o veneno da autonomia humana na igreja, e o que se vê, são cristãos completamente livres de qualquer autoridade, insubordinados, fazendo o que lhes dá na telha, donos do próprio nariz. Essa é, por acaso, uma atitude cristã? Ou não passa de uma simples impostura mundana aplicada à uma pretensa vida cristã? Paulo diz: "Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus" (1Co 6.10). O apóstolo diz, inconfundível, que o nosso corpo não mais nos pertence, do qual não somos donos (na verdade, nunca fomos, pois, antes, éramos servos do pecado [Jo 8.34]), logo, somos servos, escravos, d´Aquele que pagou alto preço por nossas almas. Aos que se julgam independentes, saibam que não existe independência, ou o homem é escravo de Deus, ou é escravo do diabo. Não há meio-termo, não se pode estar de um lado e do outro ao mesmo tempo, nem servir a dois senhores, "porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro"(Lc 16.13).
Qualquer atitude que não seja para a glória de Deus, que vise exclusivamente manter-nos no estado de autopiedade, autobajulação, autovitimação... um estado que nos coloque no centro de nossas decisões à margem da revelação escriturística, não passará de pecado, desobediência, e reflexo da inconversão ou da imaturidade espiritual. Naquele caso, é necessário Deus resgatá-lo das trevas, dar-lhe o novo-nascimento, justificá-lo. Nesse, o crente ainda é um menino, independente de quantos anos esteja convertido, criado com leite, não com carne, "porque ainda sois carnais" (1Co 3.3), e não se pode falar com eles como se fala a espirituais, "mas como a carnais, como a meninos em Cristo" (1Co 3.1).
A doutrina da igreja nunca se perdeu em meio aos delírios filosóficos invidualistas, onde, cada um por si determina como deve ser a administração da sua vida. Pelo contrário, Deus estabeleceu a igreja como o local onde os santos se reunem para, conjuntamente, louvar, reverenciar e bendizer ao Senhor; para, conjuntamente, edificarem a igreja através dos dons que Deus pôs a cada um dos membros (1Co 12.28; 14.12); "para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível" (Ef 5.7); para, amando uns aos outros, o amor de Deus ser revelado em nós (1Jo 4.7); para que cada membro sujeite-se à cabeça, Cristo. Sendo assim, não devemos pensar de nós mesmos além do que convém; "antes pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um" (Rm 12.3), sendo diariamente renovados pela "boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2); ou seja, a minha vontade será verdadeira quando ela estiver resignada e em conformidade com a vontade divina. O autônomo estará sempre contrário, em rejeição à vontade de Deus; na condição de incrédulo, a sua vida refletirá as características do homem natural, sem Deus, inconverso. Nele, não há o abandono da verdade, mas o desconhecimento da verdade, típico de quem está envolto em trevas, preso à vontade de satanás, carente da graça e libertação divinas. Esse homem finge-se crente, quando, na verdade, é descrente.

QUANDO SAIR DA IGREJA
Então, chega-se à pergunta inevitável: quando e por quê sair da igreja?
Primeiro, vimos que a maioria dos crentes que se afastam da igreja local o fazem por abandonar os princípios bíblicos em favor do pecado do orgulho e da vaidade. Porém, será que todos os casos enquadram-se nesse perfil? Não. Muitos saem da igreja porque mudaram de lugar (bairro, cidade ou país), o que é correto, nenhum crente deve ficar sem congregar, sem unir-se a outros santos. Contudo, outros apegam-se a fundamentos não-cristãos, antibíblicos e eivados:
1-Motivados pela supertição de que se pode conseguir uma "bênção" em tal igreja ou pelas mãos de tal pastor, fica-se a pular de galho em galho, sem qualquer sinal de pertencer ao Corpo, egoisticamente buscando somente "o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus" (Fp 2.21) .
2-Porque certa igreja é mais acolhedora, tem atividades sociais intensas, o louvor é mais "quente", está na moda, ou ela dá ao frequentador um "status" maior do que a pequena igreja do bairro.
3-Porque, simplesmente, poderão continuar vivendo a vida que sempre viveram, no pecado e afastados de Deus.
Especialmente nesses casos, tratamos com incrédulos, não com crentes. Mas, e estes? Quando sair? "Retirai-vos, retirai-vos, saí daí, não toqueis coisa imunda; saí do meio dela, purificai-vos" (Is. 52.11). A ordem do Senhor é imperativa: sair do meio dela! Paulo reverbera essa ordem: "Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor" (2Co 6.17). Há o mandato, mas quando ele se dá? Quando a doutrina da igreja não está fundamentada no Evangelho de Cristo. Quando a mentira contaminou a pregação. Quando a santidade deu lugar à impostura humana. Quando Deus é substituído pelos ídolos humanos. Quando se prega algo que, mesmo parecendo com o cristianismo, afronta a Cristo e Sua mensagem. Quando subterfúgios e artimanhas são iscas para pescar os néscios, e mantê-los à margem da verdade, imersos na ignorância, como cegos conduzidos por cegos em direção à cova (Mt 15.14). Em resumo: quando Deus e Sua palavra são desprezados, e o homem está subordinado à própria mente caída e pecaminosa, o que sobra é um arremedo de cristianismo, no qual não há salvação, tropeçando "ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos" (Is 59.10).
Divergências doutrinárias e de opiniões (desde que a base do Evangelho: a divindade de Cristo, Sua expiação e ressurreição, não sejam rejeitados) não são suficientes para o crente sair da igreja. É preciso algo realmente forte: aquela igreja não ser mais uma igreja, mas um local destruído pelo pecado, a ante-sala do inferno, gerenciada pelo diabo e seus demônios. Onde a Bíblia é relegada, não há igreja. Onde Cristo é ignorado, não há igreja. Onde Deus é diminuido, não há igreja. Onde a própria igreja não se vê como tal, é possível haver igreja? Onde o homem é alçado ao trono, como aquele pelo qual Deus deve se adaptar, ali não há igreja. Não no sentido bíblico, não como um projeto divino, nem a reunião dos santos. Saí pois do meio deles, porque Deus não os tem por filhos e filhas, nem é-lhes Pai.

CONCLUSÃO
Há de se entender que a mais pura igreja não está isenta de erros, pois, como disse, ela é formada por homens imperfeitos e falhos, e nem todos são ovelhas do Bom Pastor. Então, não pode ser um problema insignificante, nem a discordância em pontos menores, ou a vontade carnal e infundada, que moverá o crente para outro lugar. É-se necessário orar; considerar atentamente a Escritura; buscar o conselho de cristãos maduros, homens tementes, humildes e reverentes a Deus, para não haver imprudência, precipitação e prejuízo para o corpo local.
Faz-se necessário também o alerta quanto aos erros, primeiro, à liderança da igreja, depois aos demais irmãos. A omissão jamais deve ser uma característica cristã. Deve-se fazer o possível (sempre em estado de oração) para que a igreja volte ao caminho do Evangelho, sujeitando-se a Cristo.
A saída não pode ser uma simples opção, mas algo inevitável. Não deve ser sorrateira, como se fosse uma fuga, mas motivada consistentemente. E a igreja deve saber detalhadamente quais são as causas da saída do membro.
Da mesma forma, ao se escolher outra igreja, tem-se o dever de explicar os reais motivos da transferência; e cada igreja cuide para não dar guarita, abrigo, a "lobos cruéis" que visam dissipar o rebanho, não o poupando (At 20.29). Cada igreja é responsável por si, e se há o amor de Cristo em seu meio, ela honra-lO-á, zelando pelo Seu corpo.*
Sejamos todos sujeitos uns aos outros, revestindo-nos de humildade, "porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (1Pe 5.5).

* 1- Há de censurar-se o descuido e o pouco caso com que muitas igrejas recebem membros de outras igrejas, sem ao menos questionar o motivo da transferência, sem buscar informações sobre a vida do novo membro junto ao antigo corpo local. E, essa atitude é puro desleixo, desamor para com Cristo e a Igreja. Invariavelmente, ou quase, porque há exceções, ao acolher-se um estranho, está-se a acobertar rebeldes autônomos, dissidentes. Seria o mesmo que, guardadas as devidas proporções, dar asilo político a terroristas assumidamente censuráveis. Por isso, muitas igrejas trazem para a comunhão pessoas não-convertidas, impostores, espiões do maligno, dispostos a servi-lo diligentemente; por pura falta de vigilância. Como soa o alerta do Senhor: "Vigiai e orai, porque não sabeis quando chegará o tempo". (Mc 13.33).
2- Não tenho pretensão de ser exaustivo quanto ao tema, pois nem todos os casos enquadrar-se-ão aqui, apenas abordei alguns pontos que considero fundamentais à questão.


domingo, 19 de julho de 2009

"MOVIMENTO: JESUS AMA A TODOS!" É CRISTÃO?
















Por Jorge Fernandes

Li na internet que há um novo movimento na praça. Na verdade, esse movimento é uma repaginação de vários outros existentes no decorrer da história cristã. Ele se chama "Movimento: Jesus ama a todos!", cujo texto integral da proposta é o seguinte:

“O verdadeiro sentido de João 3:16: Porque Deus amou os homossexuais, os heterossexuais, os estrupadores, as prostitutas, os políticos, os pegadores, as patricinhas, os ladrões, os assassinos, os "normais", toda a humanidade, de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para todo o que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna." Vamos dar fim ao preconceito! E amar como Jesus amou!”.
Notas: 1) a palavra estuprador foi grafada erradamente pelo autor da cartilha. 2) Filho, referindo-se a Jesus Cristo, jamais pode ser escrito em minúsculas. Será que isso não revela o descaso para com Deus, e a divinização do homem?

Primeiro, vamos definir a palavra preconceito, segundo o dicionário Priberan:
Preconceito - Ideia, conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério. Estado de abusão, de cegueira moral. Superstição.
Segundo, qual a relação que há entre o preconceito e o amor de Deus?
Terceiro, o amor de Deus é irrestrito, ou seja, Deus ama realmente a todos os homens? Se ama, porque muitos estarão destinados ao fogo do inferno? Pode Deus amar alguém e ainda assim lançar a Sua ira sobre ele? (1Co 6.9).
Quarto, o fato do autor da cartilha especificar alguns tipos de pecados e excluir outros, não revela um padrão preconceituoso quanto aos demais pecados? Ou não seria uma tentativa de colocar quem pratica os pecados citados como eventuais vítimas, ao contrário dos demais pecadores?
Quinto, a deturpação interpretativa de que Deus amou os homossexuais, os heterossexuais, os estupradores, etc, não está fora do contexto do verso de João 3.16? Não é o caso específico de acréscimo ao texto bíblico, de vício e mau emprego da palavra de Deus a fim de distorcê-la e andar segundo os homens?
Vejamos o texto original:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
Onde lemos que Deus amou os pervertidos e pecadores? A inferência do autor não é despropositada diante da Escritura? E isso não poderia ser uma espécie de preconceito para com ela? Ao invés disso, o verso diz:
1) Deus amou o mundo.
2) Deu o seu Filho unigênito ao mundo.
3) Para que todo o que crer no seu Filho não pereça.
4) Para que todo o que crer no seu Filho tenha a vida eterna.
Aqui, a expressão amou o mundo está diretamente ligada com todo o que nele crê (em Cristo). Portanto, definindo o contexto de mundo no verso, ele se refere ao mundo dos que crêem, não ao mundo geral ao qual pertencem todos os homens, excluindo-se, portanto, aqueles que não crêem, os quais, ao invés do amor de Deus, estão sob a Sua ira. Isso é importante porque fica parecendo que Deus ama o pecador. Mas como Ele pode odiar o pecado e amar aquele que comete o pecado? (Cl 3.5-6). A resposta é: somente se esse pecador, no tempo, na história, for santificado na eternidade. Vou explicar. Deus nos elegeu sempre em Cristo, antes da fundação do mundo, para que fossemos santos e irrepreensíveis; “e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5). O que isso quer dizer? Que somos pecadores, e vivemos na carne, numa luta constante na qual Cristo venceu a guerra por nós. Porém, antes do nosso nascimento, muito antes do mundo existir, Deus já nos havia destinado à salvação e santificação por Cristo, ou seja, para Ele já somos santos, sempre fomos santos, lavados no sangue do seu Filho Amado (Rm 8.29). Para Deus já somos como Cristo, ainda que na história isso esteja acontecendo, e para muitos, ainda irá acontecer. Por isso, o verso de João 3.16 não se refere ao mundo genericamente, mas ao mundo dos santos. Reprisando: Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. É evidente, e límpido como água, a sua mensagem. João não fala de todos os pecadores, nem mesmo fala de um pecador, mas fala daqueles que são salvos eternamente por Deus, os alvos da Sua infinita graça e misericórdia, assim como Paulo diz: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós” (Rm 5.8, 8.32). Ao escrever à igreja de Roma, é incontestável que o apóstolo se refere exclusivamente aos santos (não confundir santos com crente nominal), pois o termo nós é uma comparação explícita aos destinatários da carta: “os amados de Deus, chamados santos” (Rm 1.7).
É claro que, no tempo, fomos inimigos de Deus antes da conversão. É claro que, no tempo, somos pecadores, antes e depois da conversão. É claro que, no tempo, éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. É claro que, no tempo, éramos desobedientes e rebeldes a Deus, andando segundo o curso deste mundo. É claro que, no tempo, estávamos mortos em nossas ofensas; mas é fantástico que, no tempo, fomos vivificados juntamente com Cristo (Ef 2.5), o que vale dizer que, antes, muito antes do nosso nascimento, já estávamos vivos quando da morte e ressurreição do Senhor.
A salvação é definitiva, já aconteceu, mesmo para aqueles que, momentaneamente, ainda rejeitam e se opõem a Cristo. Contudo, Deus quis que a reconciliação do homem se desse neste mundo, durante a pouco ou muita vida que cada um de nós tem recebido, para que ficasse revelada ao mundo a Sua graça para com os eleitos (os vasos de misericórdia, segundo Paulo), bem como a Sua ira para com os reprovados (os vasos da ira, segundo Paulo*).
Quando vi a foto de um “arco-íris” em que um tipo “andrógino” (na verdade, um homem pervertido por trejeitos femininos), e o texto do manifesto logo abaixo, percebi que, antes do autor combater o preconceito da igreja, deveria anular o preconceito que tem com a Escritura, reverenciando-a como a palavra de Deus (2Tm 3.16); deveria abrir mão do estereótipo libertino e não fazer coro com o mundo, o qual odeia e se opõe a Deus e a igreja.
Ao ver a imagem e ler o texto, evidenciou-se o “conceito formado e sem fundamento sério” dos proponentes de tal movimento. Evidenciou-se a sua “cegueira moral” e, ao defendê-la, blasfemam o nome de Cristo. Em tudo estão enganados, pois buscam algo que não existe, enquanto vivem exatamente aquilo que desejam combater. Como Jesus diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (Jo 14.23). E ainda: “Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não entra em vós" (Jo 8.37). Uma paráfrase a Hebreus 11.6, e que é uma verdade bíblica, seria: sem obediência é impossível agradar a Deus. A santidade é um dom de Deus, mas fruto da obediência que Ele fez nascer em nós. E se ser cristão é ser semelhante a Cristo (2Co 3.18), como posso sê-lo sem obedecer a Deus? (Ap 22.14-15). Apenas com o amor carnal por todos os homens e seus pecados, sendo que Deus abomina tanto um como o outro? E, qual a possibilidade de se amar verdadeiramente o próximo sem amar a Deus? Ou esse amor seria tão corrompido que vemos o próximo caminhar resolutamente ao inferno e não importamos?
A Palavra não é preconceituosa, nem os Seus mandamentos são, pois sem a santificação, ninguém verá a Deus (Hb 12.14). Ou podemos dizer que Paulo escrevia e pregava sem fundamento? “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus” (1Co 9-10). A Bíblia não diz exatamente o contrário do que o manifesto “Jesus ama a todos” promete? O qual chega a ser uma zombaria para com Deus? (Pv 14.9).
Porém, para os santos, a promessa é gloriosa: “mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” (1Co 6.11). O qual também ressuscitou o Senhor, e nos ressuscitará pelo Seu poder (1Co 6.14). Portanto, Deus amou o mundo, mas somente o mundo dos que crêem em seu Filho Amado. Pregar o Evangelho conforme nos foi entregue por Cristo e os apóstolos não é ser preconceituoso. O preconceito baseia-se em algo infundado, em uma crendice ou supertição e, para o crente, a palavra de Deus é o único fundamento, o seu alicerce. Segui-la, obedecê-la e proclamá-la é demonstrar o verdadeiro amor, não o falso amor que contemporiza os pecados e os pecadores em seu escopo de manterem-se rebeldes ao Criador. No fundo, preconceituosos são os que apelam ao amor de Cristo quando esse amor e Cristo não são baseados na Escritura, mas tão somente uma perversão gerada em suas mentes corrompidas.
No fim, o que importa são os que crêem.
Os que não crêem já estão condenados (Jo 3.18), ainda que se digam cristãos.
* O texto de Paulo é: "E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou? (Rm 9.22-23).

domingo, 12 de julho de 2009

EVANGELHO: SALVAÇÃO OU CONDENAÇÃO?










Por Jorge Fernandes


Em recente conversa com o irmão Natan de Oliveira, a qual originou o estudo escatológico que presentemente ele faz em seu blog, deparei-me com os seguintes versículos:

“Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade” (Col 1.5-6). Veio-me a seguinte questão: Quando Paulo diz mundo está se referindo a todo o Mundo?

Sabemos que a palavra mundo tem vários significados na Bíblia. Mas especialmente esse não se parece enquadrar em nenhum deles. Vamos analisar o que nos revelam os versos:

1) A esperança está reservada aos santos;

2) Os santos ouviram a palavra de esperança pela pregação do Evangelho;

3) Que tanto a palavra de verdade como de esperança chegou aos santos de Colossos;

4) Ela também chegou a todo o mundo;

5) Ela vai dando frutos de conversão e santificação, para a glória de Deus.

Se não interpreto equivocadamente, esses são os princípios contidos nos dois versículos aos quais o apóstolo nos leva a contemplar. Porém, quero me deter no item 4: a palavra da verdade, na qual repousa a esperança dos santos, “como também está em todo o mundo”. Analisemos algumas hipóteses para o contexto da expressão mundo:

1) Refere-se a todo o planeta;

2) Refere-se ao mundo conhecido da época;

3) É uma expressão superlativa para designar todos os que ouviram o Evangelho, não necessariamente todos os habitantes do planeta ou da parte conhecida do planeta;

4) Significa tão somente os eleitos, o Corpo de Cristo.

Vamos a outro versículo que auxiliará a argumentação:

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Col 1.23).

O que lhe parece quando o apóstolo fala em “toda criatura que há debaixo do céu”?

1) São todas as criaturas que habitam o planeta;

2) São todas as criaturas que habitam o mundo conhecido da época;

3) É uma expressão superlativa para designar todos os que ouviram o Evangelho, não necessariamente todos os habitantes do planeta ou da parte conhecida do planeta;

4) Significa tão somente os eleitos, o Corpo de Cristo.

Atente-se que Paulo escreveu aos colossenses, mas será que o seu objetivo era o de atingir toda a cidade de Colossos ou apenas a Igreja em Colossos? É claro que a carta é dirigida à Igreja e não à cidade, “aos santos e irmãos fiéis em Cristo”(v.2) e não a todos os habitantes. Colossos era uma cidade em declínio à época em que Paulo escreveu essa carta, a qual é um dos quatro escritos que compõem as Epístolas da Prisão. Paulo provavelmente não visitou a cidade nem evangelizou-a diretamente, mas provavelmente alguns dos seus colaboradores participaram na edificação do corpo local, e por isso ele se sentia responsável pessoalmente por ela.

Então, sabendo que Paulo não escreveu para todos os colossenses, mas para os santos em Colossos, não seria correto interpretar que a palavra mundo nos versículos citados não se refere ao mundo todo, a todos os habitantes do planeta, e nem mesmo a todos os habitantes da parte conhecida do planeta?

A próxima opção é a de que o apóstolo se refere apenas aos que ouviram o Evangelho onde ele foi pregado. Não é todo o mundo, nem mesmo o mundo conhecido, mas algumas partes desse mundo conhecido. Ainda assim, não seriam todas as pessoas que habitavam nessas partes, mas apenas as que ouviram o Evangelho. Parece mais plausível e exeqüível. Mas a questão aqui não é do que pode ser executado ou não, do que é eficaz ou não, até porque nada é impossível para Deus (Mt 19.26), mas daquilo que Paulo diz verdadeiramente. E o certo é que, nem todos os que ouviram a pregação converteram-se. Logo, Paulo não pode estar falando dos que apenas ouviram o Evangelho, porque entre eles houve os que mantiveram seus corações impenitentes.

A última opção é de que Paulo ao citar o termo mundo, falou exclusivamente dos santos, da Igreja do Senhor, aqueles que ouviram a pregação da verdade e da esperança, foram regenerados, e tornaram-se membros do Corpo de Cristo, “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17). Deus destinou os eleitos a ouvirem a palavra, a terem fé, de que todos seriam salvos, e de que todos fariam parte da Igreja, a qual é o mundo dos vivos, dos salvos em Cristo, e por Cristo. Resumindo: aqueles que Deus, em sua soberania e graça, decretou infalivelmente a salvação por Seu Filho Jesus Cristo, estes ouviram a pregação do Evangelho, foram convertidos e tornados santos.

O termo frutificando no v. 6 relaciona-se com mundo, e o apóstolo o compara com os santos de Colossos. A indicação é de que os eleitos do mundo produziam frutos pela graça de Deus: da fé em Cristo, e do amor para com todos os santos (v.4). Não há porque usar-se o termo frutificando em relação aos incrédulos, mas aqui ele claramente refere-se aos santos de Colossos e aos que frutificam como os santos de Colossos, “desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade”.

Ora, aqueles destinados à incredulidade jamais provarão da graça de Deus, no sentido de salvação e santificação, muito menos da verdade. É o que Paulo faz questão de confirmar ao citar novamente o termo: “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (v.10). Quem pode estar incluído neste contexto a não ser os crentes, aqueles regenerados por Cristo? Portanto, toda a relação faz-se entre o Evangelho, a pregação apostólica, a conversão e santidade, e o mundo como o mundo dos santos; ao qual fomos transportados por Deus, tirados da potestade das trevas para o reino do Filho do seu amor, “em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (v. 13-15). Neste contexto, não há lugar para incrédulos nem condenados, somente os salvos por Cristo.

No v. 23, Paulo coloca o Evangelho pregado a toda criatura debaixo do céu, do qual ele foi feito ministro “segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus; o mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” (v. 25-26). Novamente, encontramos uma inter-relação entre as palavras toda criatura e santos. O que nos leva a crer que Paulo utilizou-se dos termos mundo e toda criatura não para afirmar que o Evangelho foi pregado a todos que existiam à época, mas para designar que Deus, em sua santa e perfeita sabedoria, tinha destinado a pregação do Evangelho para salvar a todos os eleitos, e de uma forma sobrenatural, eles todos estavam ao alcance dos discípulos e apóstolos de Cristo, quanto ao ouvir a palavra a fim de serem regenerados.

Da mesma forma, no v. 28, Paulo anuncia, admoesta e ensina a todo o homem em toda a sabedoria, “para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo”. Todo o homem aqui significa todas as pessoas existentes? Se assim for, Paulo está a pregar o universalismo, a doutrina de que ninguém será condenado, e de Deus salvará a todos. Mas sabemos que a Bíblia não afirma nem confirma esta heresia, pelo contrário, rejeita-a de capa a capa. Então, o apóstolo somente pode estar a falar, novamente, de todos os eleitos, daqueles que foram destinados à salvação. O que nos leva a outra pergunta:

Qual o propósito do Evangelho? Salvar os escolhidos ou condenar os réprobos?

A Bíblia diz que os réprobos já estão condenados (Jo 3.18). A pregação da palavra apenas agrava ainda mais a situação deles. Como está escrito: “Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado” (Tt 3.10-11). Portanto, a pregação do Evangelho é para que o escolhido tenha confirmada, no tempo, a sua eleição eterna; para que o santo tenha confirmada, no tempo, a sua santidade; para que o salvo tenha confirmada, no tempo, a sua salvação; para que o filho tenha confirmada, no tempo, a sua filiação a Deus, por Cristo nosso Senhor.

Paulo não falava genericamente, como um tolo, mas sabiamente, inspirado pelo Espírito Santo. Logo, ele se refere apenas aos santos, à Igreja, ainda que alguns teimem em acreditar que o Evangelho é para todo o mundo, para todos os homens, e todas as criaturas debaixo do céu*.

*Com isso não quero dizer que o Evangelho não deva ser proclamado a todas as pessoas, em todos os cantos do planeta. Não é isto. Porém, ele surtirá efeito e trará frutos apenas nos corações aos quais Deus escolheu regenerar. Aos demais, a palavra surtirá o seu efeito também, não voltando vazia, mas condenando, segundo o que apraz a Deus (Is 55.11).


sábado, 4 de julho de 2009

NASCER OU MORRER















Por Jorge Fernandes


Há um trecho que sempre me chamou a atenção na pregação de João o Batista, quando as multidões vinham ouvi-lo as margens do Jordão, desde Jerusalém e toda a Judéia, para serem batizados (Mt 3.5-6). Em dado momento, ele avista os fariseus e saduceus, e profere: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.7-8). É uma exortação que serve para qualquer um de nós, judeus ou não; é uma pregação dura, mas que também serve a qualquer pecador, revelando-lhe a necessidade de apartar-se do mal e fazer o bem (Sl 37.27). Contudo, em vista de quem a advertência foi dirigida, revelava a intenção dos corações e de seus verdadeiros intentos: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3.9). Puxa, esse foi um direto, um verdadeiro “knockdown” que colocaria o tolo mais persistente a beijar a lona. Porque João lançou por terra qualquer expectativa dos fariseus e saduceus de serem herdeiros étnicos do céu. E mais do que isso, implicava em duas outras coisas:

  1. Nem todos são filhos de Deus. Nenhuma filiação religiosa ou étnica pode garantir a filiação divina. Como Paulo disse: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28-29).
  2. Deus pode fazer o que quiser segundo a Sua vontade, sem precisar do consentimento humano, até mesmo tornar pedras em filhos de Abraão se assim desejasse. Pois, se não fosse pelo Seu poder transformador, quem creria? E quem se converteria?

O que isso quer dizer? Que esses judeus não consideravam a hipótese de arrependimento, em suas mentes corrompidas tinham a certeza de garantia do reino de Deus pela raça. Como mentes irregeneradas, perverteram a aliança e as promessas de Deus, ao seu bel prazer, assim como a lei. João o Batista mostra-lhes a necessidade de regeneração, do novo nascimento, a fim de se tornarem em verdadeiros filhos de Deus. Como o Senhor disse a Nicodemus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus... O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (Jo 3.3;6-7). Ao que Paulo ecoou o ensino de Cristo: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8.7-8).

Da mesma forma que os judeus acreditavam que o povo de Israel não precisava de um novo nascimento, percebe-se, hoje em dia, o mesmo sentimento errôneo de que através de dogmas e filosofias humanas (não se esqueça de que tanto o farisaísmo como o sadoquismo eram filosofias dentro do judaísmo), cristãos se consideram inseridos no reino de Deus, não pelo sacrifício de Cristo na cruz, mas pela tradição de que são herdeiros pelo nascimento, pelos rituais ou pela proteção eclesiástica. Pensemos sinceramente, qual a garantia a Bíblia dá de que, nascendo em um lar cristão, cumprindo os sacramentos cristãos, ou estando em uma igreja, a salvação está assegurada?

Em outra passagem, Cristo confrontou os judeus a conhecerem a verdade, pois a verdade os libertaria (Jo 8.32). Porém, eles se revoltaram contra o Senhor, em suas obscuridades espirituais criam que o fato de serem descendência de Abraão era a garantia de liberdade. Respondeu-lhes Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado" (Jo 8.34). Eles insistiram: "Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, farieis as obras de Abraão... Se Deus fosse o vosso Pai, certamente me amaríeis, pois que eu saí, e vim de Deus; não vim de mim mesmo, mas ele me enviou... Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai" (Jo 8.39;42;44).

Cristo mostrou-lhes como estavam enganados, e viviam uma crença completamente oposta àquilo que Deus havia estabelecido para os seus servos. Ali, Ele deixou claro que a genealogia, a etnia e, porque não, a fé equivocada, em nada assegurava-lhes a salvação. Os judeus invocavam uma justificação por obras, através de si mesmos, dos antepassados, da condição transmitida pela carne. Ao passo que Cristo revelou-lhes a completa loucura de suas mentes, as quais eram incapazes de compreendê-lO: "Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra... porque vos digo a verdade, não me credes" (Jo 8.43;45).

À mente natural, inconversa, não resta mais nada a não ser a morte. Não há vida, nem salvação. Para se ver o reino de Deus é necessário nascer do Espírito: "a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (Jo 1.12-13). Por que, então, alguns ainda negam o novo nascimento? Como se a salvação pudesse ser transmitida de pai para filho, através dos sacramentos, ou pela linhagem de um povo?

Os judeus acreditavam que apenas os estrangeiros e os que pertenciam a outras religiões careciam da conversão. Sairiam de onde estavam (a cultura, etnia ou crença) e seriam transplantados ao judaísmo. Da mesma forma, muitos hoje acreditam que a troca de endereços ou a permanência neles (saindo de uma igreja ou ficando) garantir-lhes-á a segurança do céu. Sem regeneração? Impossível! Nem se adequando ao formalismo religioso, ao cumprir certos rudimentos ritualísticos; mesmo tendo-se convicção intelectual, uma aceitação pela perspectiva meramente religiosa. Porque a vivificação é obra exclusiva do Senhor, a demonstração do Seu poder em resgatar o pecador da morte e da condenação: Porque Deus, "estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus" (Ef 2.5-6). Esse é o poder que transforma o pecador em santo, o condenado em salvo, a criatura das trevas em filho de Deus; o qual opera independente da vontade humana, do homem querê-lo ou não, de buscá-lo ou não, pois essa prerrogativa é divina, algo que somente o Criador pode realizar, pois "a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção" (1Co 15.50).

É preciso nascer de novo, ou morre-se para sempre.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

NÃO HÁ MURO ONDE SUBIR
















Por Jorge Fernandes

A igreja pode mudar o mundo? Não sei se é possível, na verdade, não creio possível, pois não vejo respaldo bíblico para a afirmação de que a igreja transformará o mundo. Em especial porque, ao contrário, ela vem sendo excessivamente influenciada por ele. De certa forma, as trevas têm ganhado batalhas (não me entendam mal, as trevas jamais vencerão a luz), mas sabemos que a vitória na guerra é de Cristo, e nossa, por Cristo.
Se há algo que podemos fazer é proteger a igreja das sugestões malignas, voltar ao Evangelho, ser novamente luz e sal no mundo. Para que isso aconteça é necessário que se abandone as experiências místicas e sensitivas, a adoração superficial, e a convicção errada de que, qualquer coisa, desde que tenha uma cruz, é cristianismo; de que, qualquer um, desde que seja batizado, é cristão. Enquanto insistir-se em lutar contra o mundo, com as armas do mundo, ele sempre vencerá, ainda que nos dê, em um ou outro round, a falsa idéia de que jogará a toalha, de que está próximo de ser derrotado (entenda que, eternamente, satanás e o mal estão derrotados, mas para nós, a vitoria aconteceu no tempo, e compreenderemos a sua plenitude no Dia do Senhor). Ao usar o armamento alheio, revelamos que as armas celestiais não são as melhores, e acabamos por nos conformar aos métodos e práticas as quais queremos vencer.
Quem pode derrotá-lo? Cristo já o fez na cruz do Calvário, e ao ressuscitar no terceiro dia. Então, se Ele é o nosso general, por que temos de ouvir o inimigo irremediavelmente derrotado? Basicamente porque se abandonou a doutrina e o modo de vida cristão. Não em relação aos dogmas denominacionais de batistas, presbiterianos, assembleianos, mas a essência do Evangelho, a revelação divina nas Escrituras Sagradas, e o entendimento daquilo que Deus nos revelou como a Sua vontade.

ENSINO DA IGREJA
Li recentemente um artigo em que o irmão opunha-se ao ensino pela igreja, no sentido de que esse não é o papel da igreja. É claro que a igreja não ensina, e sim os membros que são qualificados pelo Espírito Santo e designados por ela para tal. Senão, porque Paulo escreveria: “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular. E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas” (1Co 12.27-28 – este e outros grifos são meus). Se a igreja não ensinar as doutrinas bíblicas, como o corpo terá unidade? E para que haveria doutores? “Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?” (1Co 12.17-19). Fico a perguntar se a igreja a qual esse irmão é membro não tem nenhuma doutrina, nem é ensinada a verdade aos neófitos. Pelo que entendi, apenas o Espírito Santo pode ensinar, doutrinar o eleito, e Deus usará a Bíblia como única fonte de ensino. Porém, da mesma forma que foi dado dons diferente aos membros da igreja, todos poderão aprender por si só? E no caso daqueles que são analfabetos? À época da igreja primitiva, e até pouco tempo, uma minoria era capaz de ler. Nesse caso, a palavra foi-lhes lida e pregada, mas será que todos têm a capacidade de entender? E a quem não tem o Espírito (o incrédulo, p. ex.) como chegará ao conhecimento da verdade? Não será por pregação, pelo ensino? Filipe, que não era apóstolo (o irmão diz que o ensino era uma prerrogativa apostólica) ao ser levado ao deserto pelo Espírito não ensinou ao Eunuco? (At. 8.26-39). Mas alguém poderá dizer: “Bem, você faz a defesa do ensino para o incrédulo, que ainda não é parte da igreja, nesse caso, está certo. Mas aos membros do corpo, apenas o Espírito pode ensinar”. Porém a ordem do Senhor é clara: “Fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt 28.19-20).
Isso é preservar a doutrina de Cristo, a qual se dará pelo ensino dos eleitos aos eleitos. Ou Paulo, em suas cartas, faz o quê? Ele não ensina, exorta, orienta? Mas o irmão poderia dizer: “Esse é o ensino dos apóstolos, ninguém mais pode fazê-lo”, mas os apóstolos não são membros do corpo? E eles não ensinaram a outros crentes que ensinaram a outros crentes e, assim, “o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui(Gl 6.6)? Aqui a instrução é prerrogativa humana, e não do Espírito Santo, o qual capacita tanto o instrutor quanto o instruído ao entendimento, de tal forma que o instrutor será recompensado pelo instruído (o que muitos considerarão uma ofensa: a recompensa pecuniária para ensinar), logo, essa instrução não pode ser pelo Espírito, pois, o que poderíamos dar-LHE? (a alusão a bens é claramente material, e mesmo que não fosse, a obediência, o serviço, a adoração e devoção a Deus não são nenhuma forma de "paga" pelo que Ele nos dá).
O mesmo Paulo se qualifica como doutor dos gentios na fé e na verdade” (1Tm 2.7); exorta Timóteo a que mande “estas coisas e ensina-as (1Tm 4.11); de que “se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras” (1Tm 6.3-4); “ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (2Tm 2.24-25) ; “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido (2Tm 3.14).
Não há nenhuma referência ao ensino sobrenatural do Espírito, mas ao ensino humano, segundo o poder divino de capacitar, operar e confirmar a Palavra no coração eleito, revelando-lhe a Sua vontade.
Portanto, a igreja, não como entidade institucional (Vaticano, Concílios, Dioceses, etc), é responsável por aquilo que Cristo lhe deu: o Evangelho, mantendo-o na pureza em que Ele o proclamou, na santidade da revelação escriturística. E isso é realizado através de cada um dos membros do corpo, sob a supervisão e autoridade do Espírito Santo, mas também da igreja, a qual é inspirada por Ele.

VOLTA AO EVANGELHO
Sem a proclamação da doutrina bíblica, como será possível influenciar o mundo?* Sem que os membros sejam ensinados à obediência escriturística, negligenciando-a, haverá vida cristã? Enquanto os alicerces, os fundamentos da doutrina, não estiverem arraigados na igreja (verdades como a Trindade Santa, a Queda, a Depravação Humana, a Expiação Vicária de Cristo, o Arrependimento e a Regeneração do incrédulo, a Santificação... doutrinas que já são realidade na vida do eleito, e não uma promessa futura), está-se a proclamar qualquer outra coisa menos o Evangelho.
É indispensável e urgente voltar-se à pregação expositiva, à prática cristã do estudo bíblico individual e nos lares, à Escola Dominical, para que sejamos instruídos na verdade revelada, capacitados a entendê-la, praticá-la e ensiná-la aos novos e velhos crentes, não a confundindo com a falsa doutrina e o antievangelho. Sem nos esquecer da oração diária e a intercessão por todos, crentes ou não.
O reflexo será o despertar da consciência em Deus, da redenção em Cristo, das promessas que nos aguardam na eternidade, mas, também, uma vida terrena que testemunhe o amor e a graça divinas, através de atitudes que traduzam ao mundo como é a mente de Cristo: fazendo o bem, perdoando as ofensas, confortando os aflitos, suprindo as necessidades do próximo (material e espiritual), não nos conformando com o mundo e a nossa vontade, mas resignados à vontade santa e soberana de Deus.
Assim é que demonstraremos o interesse verdadeiro pelas pessoas e a obediência sincera a Deus. Como diz o ditado: "Palavras são palavras, nada mais que palavras", e se não são acompanhadas por atitude e comportamento que as corroborem, continuarão sendo palavras; ao que o apóstolo exorta-nos: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3.18).
Cristo proclamou o Evangelho, ensinou-o, dando-nos o exemplo de como viver santa, justa e perfeitamente segundo a Sua palavra. Não há meio termo, nem muro, no qual haja neutralidade e se possa subir. Então, onde você está? Em Cristo? No mundo? Se sim, não. Se não, sim. Pois o Senhor é quem definirá: onde Ele estiver, ali o eleito estará.
* Como disse, não me iludo na transformação do mundo secular em cristão, mas piamente acredito que a Igreja influencia-lo-á, tirando das trevas aqueles que Deus predestinou eternamente à luz.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

FRANKENSTEIN TEOLÓGICO

























Por Jorge Fernandes

Há tempos me pergunto por que os crentes insistem em enviar tantas mensagens tolas, despropositadas e contra o Evangelho de Cristo a outros irmãos, e o que é pior, a incrédulos também. Falta-lhes sabedoria? “Não sabeis então discernir este tempo?” (Lc 12.56). Ou ainda não se converteram do seu mau caminho? (Jr 3.19). É possível identificar os motivos. Primeiro, o desconhecer escriturístico. Segundo, o prazer em propalar o mundanismo, afinal, ele aguça a delicadeza e os sentidos da carne. Terceiro, uma vida cristã sem Cristo. Este ponto deveria ser o primeiro, mas coloquei-o em último para abordá-lo detidamente, pois, de certa forma, pode-se falar em dois tipos de vida cristã: a verdadeira, proporcionada pelo novo-nascimento e pela ação do Espírito Santo na vida do convertido, e a falsa, onde há o engano e uma pretensa submissão a Deus. Quer saber sobre o novo-nascimento? Leia o texto “A Morte da Morte”.
Porém, é possível haver uma conversão ao contrário? O pecador aparentemente converte-se a Cristo, batiza-se, participa dos trabalhos na igreja (às vezes torna-se evangelista, diácono, pastor), alcançando a liderança para, sutilmente, corromper o Evangelho? Essa é a capacidade da heresia de se reformular e aproximar da verdade, fazendo com que as diferenças pareçam insignificantes, e o pior é que ela vem acompanhada de um compêndio de justificativas insanas e perigosas, que a torna ainda mais diabólica. O que antes era doutrina bíblica agora não é mais, e o que não era doutrina bíblica transforma-se na própria maldade pelas bocas de seus defensores. Eles acreditam ser possível redefinir as palavras do Senhor: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7.17-18). Nessa linha de raciocínio, seriam capaz de pular da Torre Eiffel em pêlo e sair voando como pássaros. Mas se apenas os morcegos, pássaros e insetos têm o dom natural de voar, é crível uma árvore má dar bons frutos ? Pelo contrário, ela será cortada e lançada no fogo (Mt 7.19); porque é impossível, sem conversão, que o homem natural dê “frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Fp 1.11).
Não contente em ter o inferno, querem dividi-lo com o máximo de irmãos, e num jogo demoníaco, promoverem as obras da carne, “as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.19-21). Mas esquecem-se de que, “tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Crêem plantar para outros a condenação, mas acabam por plantá-la a si mesmos. Assim, com o objetivo de combater a verdade, incitam, pregam e vivem a mentira, enquanto a verdade é desprezada, tornando-a antiquada, obsoleta e irrelevante.
Infelizmente, esses falsos mestres penetram nas igrejas como
crentes estabelecidos, são aceitos pela comunidade cristã, e seus ensinos enganosos espalham-se como erva daninha, cujos objetivos importunos, nocivos e artificiosos intentam trair a credulidade irrefletida da igreja. Sutilmente a heresia contamina as pessoas, pouco a pouco, tornando-a popular exatamente por ser quase a verdade, e se amoldar perfidamente à natureza corrompida e pecaminosa do homem, o qual é incapaz de vê-la, e mesmo os que a vêm, por sua perspicácia, acabam por considerá-la inofensiva ou uma verdade recriada, uma espécie de Frankenstein teológico.
Para eles, existe a verdade sem Deus ou Deus sem a verdade; mas a verdade sem Deus não existe, nem Deus sem a verdade, porque a primeira não passa de abstração, a loucura máxima a que o homem pode atingir, enquanto a segunda é a blasfêmia em sua forma mais virulenta, a treva mais densa em que o homem pode penetrar; porque a verdade para ser real e não uma fantasia leviana, tem de provir de Deus, o qual é a única verdade
(Jo 14.6).
Para eles, a verdade não precisa ser defendida nem proclamada, mas escondida a
sete chaves como um tesouro secreto do qual não se sabe o esconderijo nem se tem o mapa. Graças a Deus por nos dar a Sua revelação, a Bíblia, a qual “é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.16-17).
Para eles, a igreja não precisa da verdade; como Paulo diz, não suportão a sã doutrina,
“mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4.3-4). Para que crer na verdade? Se pelo humanismo é possível acomodar o homem no redil das incertezas, incitá-lo ao pecado, à apostasia e ao nominalismo religioso?
Para eles, o que importa é a aparência, a reputação, o sucesso e a covardia de jamais admitir a cumplicidade com o mal, tolerando-o utilitariamente a fim de obter seus interesses pessoais (o Evangelho beneficia o indivíduo, no caso, o escolhido de Deus, mas jamais o indivíduo poderá impedir que os demais eleitos sejam igualmente beneficiados pela palavra), permitindo que todo o tipo de heresia substitua os princípios bíblicos, afastando-se da revelação divina (não são precisas todas as heresias; uma ou duas, e o trabalho estará feito).

Para eles, é fundamental abandonar a objetividade da Palavra e uma vida santa, e substituí-las pela subjetividade, o egoísmo, o individualismo, o sentimentalismo e o hedonismo como filosofias de vida, onde a dissolução e a falsa liberdade os manterá em prisão, indo
“de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2Tm 3.13).
Por quê? Qual a finalidade? Ao diluírem a palavra de Deus a fim de torná-la aceitável aos descrentes (muitos falsos mestres não se esquivam de reescrevê-la ao bel prazer dos seus corações perversos), esses líderes buscam a aprovação dos homens, negando a autoridade bíblica, tornando-a o mais agradável possível ao mundo, e com isso rejeita-se toda a verdade escriturística: Cristo, o Espírito Santo, a expiação vicária, a salvação, regeneração, santidade e todo o conjunto de doutrinas cristãs (inclusive a Igreja), pois a negação de qualquer um deles implicará na recusa inevitável do próprio Deus.
Em nome da verdade, todo crente deve lutar contra a heresia e o engano perpetrado por satanás e seus discípulos; porque sempre teremos a segurança pela fé, e como ovelhas ouvimos a voz do Bom Pastor, somos conhecidos dEle, e seguimo-lO, o qual nos dá a vida eterna e nunca haveremos de perecer e ninguém nos arrebatará de Suas mãos (Jo 10.27-28), como a mais indubitável e sublime verdade. Somente Cristo pode nos libertar através do Evangelho; sem Ele tudo é permitido, mas nada possível; sem Ele a condenação é certamente a mais pura verdade.
A heresia é uma conversão contrária, o caminho inverso pelo qual a igreja trilhará ao se afastar da verdade, ao opor-se ao Evangelho, desprezando Cristo, o qual revelou-lhe a própria desobediência:
“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca. E porque me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6.45-46).
Se crê no Evangelho mas não o proclama, se crê em Cristo como Senhor e Salvador mas não o obedece, se vê a igreja como uma extensão do mundo (e tanto faz um como o outro), se não se preocupa em dar bons frutos, nem com a conversão dos ímpios, cuidado! Abandone as mensagens tolas, psicológicas, de auto-ajuda, despropositadas, sentimentalóides; renuncie a ideologia satânica que o quer preso às armadilhas do mundo, proclamando um reino superior quando está nas profundezas abissais do inferno, mantendo-se perdido em si mesmo como um cão cego e epilético a perseguir o próprio rabo.
Entregue-se à suave palavra de Deus, e não faça pouco caso da sua consolação, arrependa-se, e põe fim aos seus pecados e às suas iniquidades, praticando a justiça
(Dn 4.27).
Ouça o alerta: onde os princípios bíblicos encontram-se corrompidos e demolidos, não sobra muito mais o que destruir.
E você estará morto!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

LOUVOR: COMO IMPLODIR A DOUTRINA
























Por Jorge Fernandes

A afirmação de que o louvor pode ser qualquer coisa, de qualquer forma, e de que Deus nos aceita como somos, remete-nos à seguinte questão:
O Senhor aceita o pecador inconvertido e sem arrependimento que mantém-se em rebeldia, rejeitando a Cristo como único e suficiente Salvador? Ou será necessário que, primeiro, esse pecador seja regenerado por Cristo e transformado pelo Espírito Santo para arrepender-se e receber o perdão divino, e então ser aceito? Da mesma forma, qualquer coisa que se faça em nome da Igreja e na Igreja somente será reconhecida por Deus se obedecer aos preceitos definidos na Escritura, os principios estabelecidos pelo próprio Deus.
É possível uma adoração santa quando se apela para ritmos sensuais, com o único objetivo de entreter e saciar a carne? É possível que se execute igualmente danças muito parecidas com a "dança-do-ventre" nos cultos, e crer que se está agradando a Deus? É possível agradá-lO com um discurso humanista, que exalta o homem, em detrimento da pregação expositiva bíblica que exalta a Deus? É possível uma diversidade de técnicas mundanas subir ao púlpito (o pragmatismo, o servilismo ao pecado, a acomodação aos padrões do mundo), e agradar a Deus? É possível agradá-lO sem ser bíblico? Baseado apenas nas sensações e tentativas humanas? O homem natural certamente não verá problemas, e responderá acertivamente. Contudo, o homem espiritual, aquele que tem a mente de Cristo e foi regenerado, dirá não.
Porque o princípio da verdadeira adoração não são os efeitos pirotécnicos, nem a multidão de gestos, nem o grito tronitruante, nem o suor, nem calafrios, nem comoção pública, nem o cair ou cacarejar, ou qualquer outro fenômeno bizarro. O preceito da verdadeira adoração é a obediência a Deus e a Sua palavra, as Escrituras Sagradas.
As igrejas começam sempre abrindo uma exceção em suas práticas, as quais consideram sem importância. E, normalmente, começa-se pela liberalidade na música, no louvor. Acontece que os bodes precisam de diversão constante, e estão ali para distrair e, num golpe final, destruir o rebanho (como objetivo, porém não alcansável, visto que as ovelhas de Cristo são salvas e jamais destruídas pelo inimigo). E como isso se dá? Primeiro, corrompe-se o louvor, onde a santidade dá lugar a toda prática profana, com a apropriação dos sentimentos e valores do mundo para depois, progressivamente, implodirem a doutrina e a validade escriturística.

É esse o caminho que os ímpios impõem à igreja enquanto irmãos sinceros, mas iludidos com as falsas promessas de resultados (e a ignorância escriturística é fundamental para se manter crentes em estado de coalizão com as forças malignas; os quais veem erroneamente os valores humanos como sendo de Deus), permitem-se cair na blasfêmia, no mundanismo, na rebelião e no desprezo ao Senhor.

A igreja que acredita louvar a Deus na carne (repito: com ritmos sensuais, contagiantes, eletrizantes, danças profanas, e técnicas do show business) está assentada no lamaçal do pecado, e receberá a disciplina ou a ira divina.
Porque a verdadeira adoração não é uma isca para fisgar espectadores através da musicalidade profana, da pregação artificiosa e antibíblicas; a verdadeira adoração é a submissão do crente a Deus, sujeitando-se à Sua vontade, e porque não, trabalhar para manter os bodes e ímpios fora da igreja ao invés de chamá-los para um acordo de paz, onde os bodes não cumprirão a parte assumida, mas dissimuladamente buscarão dispersar as ovelhas, se possível fosse, destruí-las.
Infelizmente a maioria dos adoradores modernos enquadram-se na sentença de Paulo: "Segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus" (Rm 2.5).

domingo, 7 de junho de 2009

AUTORIDADE E BONDADE [Comentário a Jó 2.1-3]















Por Jorge Fernandes

Os versículos 1 e 2 repetem a situação descrita em 1.6-7, e os meus comentários podem ser lidos aqui.
A primeira parte do verso 3 também foi registrada em 1.8, mas desejo reafirmar alguns conceitos ali presentes.
“ E disse o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal”.
Esta declaração somente será irrefutável:
1) Se Deus controlar completamente todo o processo da vida, incluindo os pensamentos e ações de Jó.
2) Se Deus preordenar infalivelmente todos os eventos na vida de Jó. A presciência não garante que a Sua declaração seja verdadeira, e de que nem mesmo esse conhecimento seja verdadeiro, em vista de que, no decorrer do tempo e da história, os homens (como co-autores dos eventos na visão arminiana) poderão alterá-la através da mudança de opinião, postura e ações.
3) Se Deus for imutável (Tg 1.17); porque Ele é perfeito, e somente os seres imperfeitos estão sujeitos a mudanças e variações.
4) Se Deus for completamente soberano. A soberania de Deus não pode ser compartilhada nem mesmo conosco (o que é um escândalo para os humanistas). Ou Ele é completamente Todo-Poderoso (o que representa controlar 100% de tudo o que há, seja físico ou espiritual) ou não é, e, portanto, não é Deus (a idéia diabólica de que Deus “abriu” mão de Sua soberania como afirmam os proponentes do teísmo-aberto ou relacional é antibíblica e não encontra nenhum versículo que a corrobore). Qualquer teologia que retire de Deus a soberania completa e total sobre tudo e todos, inclusive sobre o homem, é maligna, herética e blasfema.
5) Se Deus assegurar a eficácia dos eventos. Para que Deus afirme categoricamente que Jó é homem íntegro e reto, é necessário que a sua integridade e retidão sejam garantidas, não sejam alteradas, nem haja uma mudança de vontade, o que exclui a idéia de livre-arbítrio. Se ele é livre para se tornar no que quiser, podendo ser hoje um homem reto e amanhã um homem iníquo (ou ainda hoje à noitinha), é possível Deus ter convicção da sua equidade? Quem garante a integridade e retidão de Jó? Deus ou ele? Pode Jó garantir alguma coisa a Deus de forma que seja totalmente confiável? Quem é fiel, Deus ou o homem? Se o homem é fiel, Deus pode se tranqüilizar. Se o homem não é fiel, Deus há de se preocupar. Mas não é o que acontece, porque o Senhor é fiel e mais nada ou ninguém é (1Co 1.9). Ele é quem garante a integridade e retidão de tal forma que Jó jamais se desviará delas sendo confirmado justo diante do Senhor, o qual o capacita, move e opera em sua vida ativa e positivamente (inclusive nas causas secundárias, terciárias, ou quantas existirem) a fim de que O tema e desvie-se do mal. Do contrário, estaremos falando de qualquer outra coisa menos do Deus Vivo, e apelaremos para conceitos extra-bíblicos, os quais não foram sumariados pelo Senhor como verdadeiros e infalíveis, mas sendo pura especulação e improbidade da mente caída e nociva do homem.
Parênteses: Há quem diga que me preocupo demasiadamente com a soberania de Deus, e esqueço-me de refletir em Sua bondade. Ao que replico: Por que o fato de se subordinar todas as coisas à soberania de Deus fa-lO-á menos bom? É a bondade conflitante com a soberania? Elas são excludentes? Para que uma exista é necessário que a outra seja fragilizada? Deus não pode ser completamente soberano e completamente bom? O que uma coisa tem a ver com a outra?
Na verdade não posso tecer nenhuma afirmação legítima e verdadeira de Deus se não apregoar a Sua total soberania e total bondade. Se tento excluir ou minimizar qualquer desses conceitos escriturísticos, estarei construindo ou imaginando outra coisa menos o Deus bíblico. E quando se diz que Deus é bom, e que todos os Seus demais atributos estão subordinados à Sua bondade, e que por isso deu liberdade de escolha ao homem, e que por isso abriu mão de Sua soberania para “penetrar” no tempo e vivê-lo, sofrê-lo, e surpreender-se como qualquer criatura, anelamos o pecado por deliberadamente suprimir parte do que Deus é; à revelia do que nos foi revelado, do que declarou de Si mesmo (por isso os liberais e heréticos precisam suprimir das Escrituras a sua infabilidade, inerrância e inspiração divina, para acrescentar suas mentiras e perversões).
Não vejo em que os proponentes apenas do amor (ainda que completo, total) tenham o verdadeiro conhecimento de Deus. Da mesma forma que os proponentes apenas da soberania também desconhecem-nO.
A segunda parte do verso 3 diz:
“e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa”.
O verbo incitar é a palavra chave no texto e, segundo o dicionário Priberam, quer dizer: 1. Excitar (alguém) a (outrem) levar a efeito alguma coisa. 2. Despertar, aguilhoar. 3. Provocar. 4. Desafiar. 5. Açular.
A partir dessas definições pode-se entender o texto de duas formas:
1) Satanás instigou Deus a consumir Jó. Pergunto: Quem pode instigar, provocar ou desafiar Deus? Digamos que isso seja possível. Provaria então que Deus não é sábio o suficiente em tomar decisões; que se deixa influenciar pelas tentações; quis inocentar-se diante do diabo; e afligiu um homem sem causa. Em suma: provaria que Deus é fraco, imperfeito, injusto, e pode ser manipulado por suas criaturas. Seriam descrições de Deus? NÃO! A Bíblia diz que Ele é Todo-poderoso, Soberano (Gn 17.1; Ap 1.8), Perfeito (Sl 18.30), Bom (1Cr 16.34; Sl 100.05; Mc 10.18), Sábio (Rm 16.27; 1Tm 1.17; Jd 25), Justo (Sl 11.7, 145.17; 1Pe 3.18), e, finalmente, não pode ser tentado (Tg 1.13*).
Qualquer interpretação que se aproxime minimamente da concepção infame e falaciosa de que Deus atendeu à provocação, de que se submeteu ao teste diabólico, é herética, absurda e contrária a todo o ordenamento bíblico, devendo ser abominada e repelida prontamente.
2) Deus está a confrontar o diabo, o qual desejando a destruição de Jó e duvidando da capacidade do Senhor preservá-lo em integridade e retidão, ouviu que mesmo assim Jó “ainda retém a sua sinceridade”. Ou seja, os argumentos que levaram o diabo a pedir a Deus que tocasse no servo (sendo ele quem o tocou), não foram suficientes para Jó pecar. Assim expôs-se a fragilidade, inutilidade e insuficiência do argumento maligno, e sua flagrante derrota, o que certamente levou-o a odiar ainda mais Jó e a desejar ainda mais a sua ruína. De igual forma, o Senhor manifestou o Seu poder de preservar o servo da blasfêmia e do mal, a despeito de toda a incredulidade perversa de satanás.
Veja bem como é reconfortante e nos dá segurança saber que Deus peleja por nós (Dt 3.22), de que jamais cairemos da graça (At 20.32; 2Tm 1.9), estamos seguros na Rocha, Cristo (Sl 62.6 c/ Mt 7.25), e de que satanás cumpre exatamente o que Deus preordenou como sua área de atuação. Deus revelou-lhe a autoridade pela qual ele foi expulso dos céus (Is 14.12; Lc 10.18; Ap 12.7-9), e pela qual está submetido ao controle de empreender exatamente os desígnios divinos. Todas as suas ações foram planejadas por Deus, bem como as ações de toda a criação, e como ela, o diabo está subordinado ao eterno decreto pelo qual o Senhor ordenou todo o universo, a fim de que se cumpra inexoravelmente a Sua vontade.
Como exemplo (e apenas como tal), digamos que Deus seria o General do exército, o planejador, e satanás um soldado raso que pensa, exercita e age como um militar, sem ter acesso à totalidade do plano do comandante. O soldado somente sabe a parte que lhe cabe no plano, aquilo que lhe foi ordenado fazer e, seguramente, não é capaz de controlar nem mesmo o que executa se não lhe for propiciado os meios para cumpri-lo. Quem planeja, condiciona, dispõe e estabelece as funções de cada um dos soldados e das tropas, de cada um dos armamentos, a forma como, onde e quando atacar e defender, os deslocamentos dos blindados, e ainda todas as minúcias envolvendo o combate, é a autoridade do General. É ele quem determinará a melhor estratégia, e estabelecerá os meios necessários para que a vitória seja alcançada.O soldado não pode organizar um plano e colocá-lo em ação, pois além de não deter autoridade, está sob ordens superiores.
Alguém perguntará: Por que Deus afligiu Jó? Ele não era um homem justo e temente a Deus? Qual o motivo do seu sofrimento?
No decorrer do livro, esses e outros questionamentos serão clarificados pela própria palavra de Deus. Por hora, ficamos aqui.

* O texto de Tiago é complexo, porque pode nos levar a pensar que o mal e o diabo são forças criadoras, autoexistentes, independentes de Deus. E nada é independente ou livre de Deus, porque se assim fosse, Deus não seria soberano e o Todo-Poderoso. Tiago não disse isso, e o que disse está em conformidade com toda a Escritura. Explicando, Tiago diz que a autoridade de Deus é suficiente para que ninguém se absolva (e se considere escusável) com a desculpa de que foi tentado por Deus. Como está escrito em Ezequiel 18.4:"a alma que pecar, essa morrerá". Este é o princípio, o da autoridade de Deus sobre as Suas criaturas. E isso basta para que a condenação sobrevenha sobre elas, ao descumprirem a Lei Moral, pecando e se rebelando contra Deus (Tiago confirma Paulo em Rm 9.16-21. Os textos, para mim, tratam da mesma questão).

domingo, 31 de maio de 2009

DESTRUIR O NÃO CONSTRUÍDO*

















Por Jorge Fernandes

Há um ditado popular que diz: "Política, religião e futebol não se discutem". Quem o afirma, faz-no com um ar de infinita sabedoria, como se essa atitude fosse capaz de promover a paz mundial. Na verdade escondem claramente outras evidências e deficiências:
Primeiro, de não terem convicção que os capacite e qualifique a discutir esses e outros assuntos.
Segundo, de que são desinformados, e desconfiam da própria capacidade de levar a conversa a um padrão mínimo de argumentação; o que provavelmente torna-los-á alvos fáceis ao ataque, sentir-se-ão vulneráveis ao raciocínio alheio.
Terceiro, proferem-na com um sorriso e olhar superiores, quando estão a afirmar apenas a própria inferioridade e apatia. É o artifício vulgar, o atestado de burrice do ignorante; mas muito mais do que isso é a covardia daquele que não quer se preparar.
Por que abordar este assunto? Por dois motivos:
1- Ao agirem assim eles estão renegando a si mesmos, e estarão renegados, à ignorância, pois dizem claramente: "não quero entender nem conhecer, e tenho raiva de quem sabe!". A consequência é que se sentarão não muito confortavelmente na escuridão, e permanerão ali cultivando a preguiça mental que aproxima-los-á cada vez mais da mediocridade; a serem facilmente dominados pela ignominia e pela imprudência.
2- Jamais se envolverão em questões pertinentes e essências à vida. A consequência é que ficarão a cargo e nas mãos de outros menos qualificados e dotados, contudo, menos medrosos, ainda que o destemor se reflita apenas na arrogância de proferir asneiras e mentiras como se fossem verdades. Os omissos terminam por transferir aos vaidosos e tolos a sua razão, ou pelo menos a possibilidade de se ser razoável, entregando-lhes o seu juízo.
Vivemos o momento em que ter convicção é sinal de radicalismo, primitivismo, e de que ela invariavelmente colocará as pessoas em pontos extremos, e isso equivale a incitar a violência, a intolerância, e o caos social. Tal assertiva é insustentável, e por si mesma algo sem pé nem cabeça. É claro que não estou a dizer que todas as opiniões arraigadas são verdadeiras; porque para tê-las como verdade é necessário possuir pressupostos que a sustentem, e que estejam de acordo com as regras da lógica. Ainda assim podem ser falsas, se as premissas estiverem erradas.
Mas como saber que um convicto está certo? O debate é uma das maneiras. Então excluir o debate é favorecer às falsas crenças, é a certeza de mantê-las intocadas em todas as suas falácias. Isso serve tanto para se discutir as questões relacionadas à origem da vida (criacionismo, D.I., darwinismo) quanto ao governo e a sociedade provocar-nos a legitimar o gay como um "terceiro" sexo (mesmo com os votos da maioria ou por decreto-lei essa provocação é irracional, estapafúrdia, e deliberadamente artificial).
Acontece que não discurtir essas e outras questões está relacionado ao fato da maioria das pessoas simplesmente desconhecê-las, e não querer conhecê-las. Preferem sorver o caldinho pestilento que as ideologias diabólicas (literalmente falando) fabricam e enfiam goela abaixo dos indolentes. E isso não acomete apenas aos não crentes (o que é natural) mas, para a nossa tristeza, também aos cristãos.

A VERDADE E O ENGANO MENTAL
Quando afirma-se que a Bíblia é a regra de fé e vida, o crente não pode desprezar suas doutrinas e ensinamentos com o risco de ser um mentiroso e um falso crente. Ao contrário, se o Evangelho é o norteador, ele será relevante e insubstituível para formar e moldar a opinião quanto ao certo e errado, em conformidade com o padrão moral divino. Assim o caráter do crente estará modelado à semelhança do caráter de Cristo; e somente se irá à sociedade defender os valores cristãos, capacitado a opor-se a tudo o que é antievangelho, combatendo o pecado e os sofismas, se a mente por trás dessas decisões for a mente de Cristo. Se não se conhecer a Palavra, a qual foi dada uma vez aos santos (Jd 3), como diretriz, a molamestra que nos revelará a verdade em todas as questões e assuntos da vida, como pode-se ser luz em meio as trevas? Pode-se ter a ilusão de ser qualquer coisa, até mesmo confundir essa coisa com a luz, mas jamais será luz, pois é apenas a ausência de luz... "Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus" (Jo 3.21). A verdade não se oculta ou esquiva-se, ela procura a luz, os que são iluminados e capacitados pelo Espírito Santo a entendê-la, para proclamá-la, após o entendimento. Alguém poderá dizer: "você está errado. Somente Jesus é a luz". Sim, Cristo é a luz! E nós, o que somos? "Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa" (Mt 5.14-15). Ao chamar-nos de luz, Cristo o faz não porque somos capazes, santos e salvos por nossa própria honra e mérito, mas porque não nascemos do "sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (Jo 1.13). Somos capacitados, feitos santos e redimidos pelo Seu sangue e poder que operam em nós, tirando-nos das trevas e conduzindo-nos a Si mesmo, a fim de não sermos como os incrédulos, nos quais o deus deste século cegou o entendimento "para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus" (2Co 4.4). Note que Cristo é luz, o Evangelho é luz, e somos luz (não luzes, porque a única luz se reflete nos eleitos), pois Cristo a produz em nós, pelo poder da revelação da palavra de Deus.
Sem a compreensão das doutrinas bíblicas é possível pregar o Evangelho de Cristo? E algo ainda pior: é possível conhecê-lO? Como? Pela sensação, misticismo, subjetivismo? Ou seria o medo de ser confrontado pela verdade, pela revelação objetiva da palavra, e manter-se diante de um cristo que se afigura ser o que Cristo não é? E se o cristo seguido é uma miragem, como pode o discípulo viver como santo? Se não é santo, não é bíblico, porque a palavra de Deus é a verdade, e somente os santos são santificados na verdade (Jo 17.17). Portanto, a revelação acolhida é proveniente de outra fonte, do próprio pai da mentira, o maligno, que, sob os trajes de santo, insufla as pessoas a relegar a doutrina à irreflexão, através do falatório irracional de que se há debate, então a teologia não presta, nem ao menos deve ser considerada. Então, "tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo" (Cl 2.8).
O esquema de satanás é frágil mas eficaz, já que os descuidados aventuram-se a acreditar na primeira bobagem que lhes é contada e, imprudentemente, sem o escrutínio do texto bíblico, numa fé cega e tola, afastam-se mais e mais da realidade do Evangelho, numa falsa idéia da verdade, o engano mental. Por isso, "ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência" (Ef 5.6); mas o diabo não precisará de muito esforço para manter os seus corações entorpecidos; eles mesmos se encarregarão de colocá-los em bandejas e servi-los com requintes de zelo ao inimigo.
Então, àquele que diz servir não serve, e de quem quer fugir se submete, num esforço inútil de construir enquanto destrói o que não foi construído. Essa mente está completamente obliterada pelo pecado, e urge-nos ouvir a ordem do Senhor: "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem" (Mt 7.6).

O QUE É, E SERÁ, JÁ FOI!
Referindo-se a Si mesmo, Cristo declarou: "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.32). Cristo libertará os eleitos de todo o engano, dúvida, prisão e mentira, e da falsa suposição de que Deus quis se revelar fora da Escritura. Logo, é possível se opor à verdade sem se opor a Cristo? Ou seria a impossibilidade de conhecê-lO que o faz opositor da verdade?
Pense nisso antes de refugar uma discussão. Há as que não valem realmente a pena; mas se não tentar, como saber? Como e quando se deve aplicar a exortação de Paulo? "Ao homem hereje, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e peca, estando já em si mesmo condenado" (Tt 3.10-11). Depois de uma e outra admoestação... isso não representa uma disputa excessiva, interminável; mas o hereje há de ser advertido primeiramente antes de ser abandonado.
Há tempo para tudo, e "tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu" (Ec 3.1). E o tempo se expirou. Porque "o que é, já foi; e o que há de ser, também já foi" (Ec 3.15).
Não se cale, ore; para, naquela hora, o Espírito Santo ensinar o que se convenha falar (Lc 12.12).

*
Uma abordagem diferente, e muito melhor, pode ser lida no Frases Protestantes, do Ranieri Menezes, AQUI

sexta-feira, 22 de maio de 2009

MUNDO EM FILIGRANAS















































Por Jorge Fernandes


Tenho que uma das coisas na qual os crentes mais negligenciam é a afirmação de Paulo: "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" (Rm 8.7). Em outras palavras, Paulo está dizendo o que Tiago diz: "Não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tg 4.4).
Em nome da intelectualidade, tolerância, do politicamente correto, indolência, comodismo, pieguice, e de tantas outras desculpas esfarrapadas, a igreja tem mantido, infelizmente, uma íntima relação com o mundo. O que vale dizer que as trevas ocuparam o lugar que deveria ser da luz, sucumbindo à escuridão completa, na ilusão de que estão a favorecer ou colaborar com a luz. O mundanismo na igreja é como uma peste, um flagelo, uma maldição que se propaga como um vírus letal, o qual consumirá e afasta-la-á do seu propósito: a grande comissão, a obra de proclamação do Evangelho, e a consequente salvação de almas.
Muitos vão taxar-me de fundamentalista (no sentido de reacionário, retrógado, extremista, medieval), mas a própria palavra de Deus afirma que os crentes devem se considerar em constante guerra com o mundo, não se conformarem com ele (Rm 12.2), nem o amarem, pois ao que ama o mundo, o amor do Pai não está nele (1Jo 2.2). Logo, se você quer agradar a Deus sendo obediente aos seus mandamentos, terá de ser reacionário, inflexível, ortodoxo e extremista em defender e viver a Escritura, opondo-se ao pecado. Ou não somos de Deus? Ou não sabemos que o mundo está no maligno? (1Jo 5.10). Não há de se ser condescendente, nem manter-se em uma relação amigável, nem compartilhar qualquer tipo de interesses com aqueles que estão no mundo, os quais são filhos de satanás, e esforçam-se em compartilhar e promover os ideais, princípios e conceitos anti-evangelho de Cristo, que os levarão à morte definitiva, e a quem pactuar com eles. Ouça o que o Senhor nos diz: "Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo" (Jo 17.14), pois "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia" (Jo 15.19); "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim" (Jo 15.18). O que lhe parece? É possível se enganar? A sentença de Cristo deixa dúvida? Ou será que negligenciamos a Sua advertência fazendo-nos aliados do inimigo, julgando-nos amigos de Deus? "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro" (Mt 6.24). A maior tolice que o crente pode cometer é acreditar que o mundo será sincero, pacífico e justo; antes ele é igual ao seu mentor, o qual "foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira" (Jo 8.44), e "não vem senão a roubar, a matar, e a destruir" (Jo 10.10). Cuidado! Por certo é o que ele deseja ardentemente, e, insistente, não se furtará a usar de todos os meios para lançar-nos em definitivo no abismo.
E tudo o que estiver em disposição de resistir a qualquer dos preceitos bíblicos, os quais Deus decretou como o padrão de vida cristã, representará inimizade para com Ele, ainda que aparente insignificância, e faça-se inofensivo. Você ouve piadas imorais e ri? Não se importa em ser desleal? Nem de falar mal do colega de trabalho ou escola? Já olhou para alguém e sentiu-se superior a ele? Ou desprezou-o por não acompanhar o seu raciocínio?... Não estou a falar de prostituição, adultério, furto, vícios, assassinato, e coisas do gênero, mas dos valores cristãos mais elementares que são desprezados e combatidos diariamente, e pelos quais você não se importa. Falo dos filigranas, dos mais tênues desejos que dividimos com o mundo: orgulho, inveja, vaidade, cobiça, trapaças (que se acalentam de uma forma tão intensa e muitas vezes passam despercebidas), e mais, da sua ordem pedagógica de nos sujeitar ao fim por ele pretendido. O salmista nos adverte: "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite" (Sl 1.1-2) . O que isso quer dizer? Que o crente não deve:
1) Ouvir o conselho do ímpio.
2) Deter-se em seu caminho, antes afastar-se dele. Se não for possível, deixá-lo passar a galope.
3) Assentar na roda dos escarnecedores, e assim, se fazer e agir como um zombeteiro. O alerta é evidente: manter a distância máxima de tudo o que se refere ao mundo, no sentido daquilo que o mundo tem, produz e doutrina como elementos que o levarão ao pecado e a desobediência. Porém, o crente deve ter prazer na Lei do Senhor, e nela meditar dia e noite, incessantemente. Este é o antídoto para não comungar com o mundo: o temor e reverência a Deus, o deleite e a alegria em se sujeitar à Sua vontade expressa claramente na Lei.
Para muitos é possível ser um crente sem amar a Lei de Deus; e, ultimamente, a igreja tem sido vítima (há casos em que é fomentadora) da idéia de que é possível servir a Cristo odiando a Lei. Mas como o Senhor pode concordar que alguém se intitule Seu filho se odeia e despreza aquilo que criou? É coerente? Não. E demonstra o quão pouco razoável e entendido é quem assim pensa e age à revelia da revelação divina, a qual nos diz que a Lei é espiritual (Rm 7.14), santa, justa e boa (Rm 7.12); o que não significa que seremos capazes de cumpri-la. Cristo fez isso por nós, para nos salvar (Gl 3.13). E a prova de que sou salvo é o amor à Lei (Sl 119.163), e desejar no íntimo cumpri-la, ainda que não o faça completamente. A minha alegria é obedecer a palavra de Deus, e a minha tristeza é não ser capaz de realizá-la, por isso a necessidade de arrepender-me e clamar o perdão divino.
Aparte:[Em Romanos 7, Paulo faz um verdadeiro tratado do domínio da lei sobre o homem. Ele fala de duas leis: a Lei santa e justa que revela o pecado, e pela qual Cristo morreu, e com Ele também morremos para o pecado; e a lei do pecado que "habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem... Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim" (Rm 7.17-18, 20). Ou seja, a Lei que revelou-me o pecado, pelo qual seria condenado, foi pregado na cruz do Calvário por Cristo, que cumpriu-a na carne por mim; o que me tornou livre da condenação da Lei, liberto do seu jugo. Contudo, deve-se anelar o desejo de observa-la, em sujeição à vontade de Deus, como Seu filho, o qual tem de ser santo como é santo o Pai celestial (Lv 20.26).
Por outro lado, o apóstolo aponta a incapacidade de se livrar completamente da lei do pecado, a qual serve-se da nossa carne. É o remanescente da nossa natureza corrupta em conflito com o Espírito que habita em nós, opondo-se um ao outro (Gl 5.17). Desta forma, se não reconheço o meu pecado, como me aceitarei pecador? E como buscarei em Deus a santidade e o perdão? Porém, alguns enganam-se a si mesmos dizendo que não têm pecado (1Jo 1.8), ou desprezam-no como algo irrelevante e, assim, poderiam achar que "tanto faz"; com o seguinte argumento: já que não se está livre do pecado, porque não pecar? Esse é um pensamento ímpio e que nada tem a ver com o legítimo propósito de Deus para os Seus filhos. Mesmo que não realizemos toda a Lei, devemos amá-la e desejar sinceramente obedecê-la, como a expressão da vontade divina aos eleitos] .
Claro que há posições divergentes. Muitos crêem que os cristãos poderão se apropriar daquilo que de bom a cultura, a ciência, a educação seculares podem nos oferecer. Creio ser isso evidente, pois somos beneficiados pela tecnologia, pela medicina, pelos avanços em todas as áreas do conhecimento humano, os quais acontecem apenas e somente pela graça e vontade de Deus. Não vejo o porquê de se rejeitar aquilo que o mundo realiza de bom, e que são dádivas do Criador para os homens (para todos os homens, porque Ele usará ímpios para abençoar os santos e vice-versa). Contudo, há de se ter uma separação do crente com as práticas que afrontam a Deus. Ambientes, programações e interesses que infringem a Lei Moral devem ser abominados e repelidos prontamente (bares, danceterias, e a maioria dos programas de tv, por exemplo).
Infelizmente, muitos cristãos têm se deixado seduzir pelos apelos do mundo e andando segundo o seu curso, segundo o espírito que opera a desobediência nos homens (Ef. 2.2); e, progressivamente têm permitido que o pecado entre em suas vidas e as consuma. O que acaba por transformar muitas igrejas em "parques de diversão" do diabo, onde ele se diverte zombando dos que o consideram inofensivo, dos incautos e estultos que são ludibriados pela perversão que há em seus corações, pela soberba dos seus ceticismos, ou das suas crendices.
Ao considerarem algumas práticas malignas como ingênuas, como fruto da "evolução cultural da humanidade", não se apercebem de que são dominados e tragados pela astúcia do prazer ilícito, pelo desejo obsceno, pela imoralidade e, anestesiados, têm suas mentes e corações cauterizados pelo pecado (a mente que deveria ser de Cristo, ainda continua sendo a mente governada pelo pecado, irregenerada), desprezam a Deus, ainda que tentem se convencer de que O servem, quando são escravos de si mesmos e do maligno.
A Bíblia alerta-nos a não descuidar com o pecado, o qual é sutil e malévolo, e quer sempre nos ver rebelar, nos ver insurgir contra Deus, o que, no final, será a nossa destruição.
E é assim que o mundo quer, que os filigranas sejam tecidos ao nosso redor e nos aprisionem, e, enfim, não restará mais nada além dos grilhões, e o Inferno.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

NATURAL






















Por Jorge Fernandes

Encurralado, a vergonha bate à porta, como um sinal sem resposta,

Uma explicação sem jeito, vazia, inócua, somente o mal a levar-me a efeito,

À desonra que não ignoro, e se esconde nos gritos,

Mas não abafam a dor que inflige, o sofrimento desnudado,

Pois o que fiz divide-me, e as partes colaboram para o temerário,

E a lágrima descuidada, não apaga o dito nem o feito anos a fio.

O torpor camufla-me; na impossibilidade de encará-lo nos olhos,

Desvio-os ao longe, onde não revelem o quanto a minha alma indistinta

Pode refletir-se nas águas turvas da bravata, onde a névoa oculta com traços de civilidade

A fraqueza moral instalada no pecado, os irmãos siameses,

A levar-me ao abandono, ao digladiar insano contra Deus.

O vexame diante da verdade, a olhá-la de esguelha, a esperar o descuido,

Para tomar as rédeas daquilo de mais sórdido construído.

É o canto esmaecido do pardal, a resposta que não vem à tona,

Solapada em toneladas de impurezas,

A desculpa é o favor que me concede continuar por tudo o que passei e não remediei,

O que para trás ficou, segue-me adiante, a fazer-me pior do que fui um dia,

E a chuva a encharcar-me não lava a sujeira e o odor fétido a cobrir-me,

No qual me atolo como um barco encalhado, no refúgio de não poder livrar-me,

Não há como soltar-se sozinho, não há força nem movimento útil,

Apenas é-se capaz de ir mais rápido ao fundo, qual objetivo alcançado,

Restando o grito de desprezo a soluçar em gorgulhos,

O afogar-se no inútil esforço, o descontrole de não ter o escape,

É a desculpa para insistir nos erros.

Já senti isso muitas vezes, passei por isso outras tantas,

Basta seguir o mal levianamente, e ele nos levará a imolar até mesmo o que não temos,

É-nos emprestado, será cobrado com juros, e nos deixará nu como terra assolada,

Nem mesmo as cinzas perdoarão, enquanto reviro-me no mover contra Ele,

Pois não é possível o mundo me absolver, se está a cumprir sua própria pena.

A evasiva não passa de pilhéria, é o medo de não parar até ser arrancado e posto no patíbulo...

O silêncio é o risco assumido, o perigo que não se acaba.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

COMENTÁRIO A JÓ 1.13:22 - PARTE 2




















Por Jorge Fernandes

Após saber da morte dos filhos, "Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou" (v. 20). Ele se sujeitou à vontade do Senhor de uma forma tão resignada, que somente alguém dominado pelo Espírito Santo de Deus poderia assim agir. É fantástica a assertiva bíblica de que "e adorou", mesmo diante de todas as terríveis notícias, de ver o seu mundo virado ao avesso, de sofrer e entristecer; o coração submisso de Jó contemplou a soberania de Deus, Seu poder e sabedoria, restando-lhe, inevitavelmente, adorá-lO; reconhecendo a sua finitude e dependência, confessando por legítimo o que foi dito do homem: "porquanto és e em te tornarás" (Gn 3.19).

E mais, convencido de que não tinha nenhum direito diante de Deus, de que não poderia apelar a nada, nem mesmo como homem justo, e de que Deus detinha todas as prerrogativas sobre ele como o genuíno Senhor de tudo o que possuia, inclusive, o de dispor até mesmo da sua vida. Não é isso o que Jó nos disse? "Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor" (v.21).

Ele reconheceu que o mal, ainda que seminalmente, é o bem nas mãos de Deus. "Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia" (Sl 34.8). Não foi o que José constatou, de que Deus transformara o mal em bem (Gn 50.20)? E Paulo não se convenceu do mesmo? Ao escrever que "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28)? Mesmo que seja o mal? E se o mal concorre para o bem, logo o mal não é o bem também? Usando as palavras do Natan Oliveira: "Para nós é mal... Mas para Deus, tudo concorre para o bem, logo até o mal visa um bem, logo não é mal...".

O mal não é mal quando procede de Deus, porque tudo quanto Deus faz é bom, isso é algo que há de se entender: por definição escriturística, Deus não pratica o mal. O mal é criação de Deus e está no nível das criaturas, portanto, somente pode ser realizado por elas. Somos nós, o diabo, e os anjos caídos que exercem e exercitam o mal, predestinado pelo Deus pessoal da Bíblia que o determinou inteligente e imutavelmente como todos os demais eventos no universo.

Quando Deus diz que faz o mal (p.ex., Is 45.7), usa de um antropomorfismo que é a forma de se fazer entender pela linguagem humana; e ao dizê-lo confirma que é o Supremo Soberano sobre tudo, e de que nada escapa-lhe, pois tudo procede da sua vontade, a qual é plenamente realizável, não havendo chance de ser frustrada. Portanto, não há outra força ou poder; Deus tem o poder absoluto, e tanto o bem como o mal são controlados por Ele.

Para nós há o mal e o bem porque Deus assim o estabeleceu através da Lei Moral. Mas a Lei Moral não vale para Deus, somente para as suas criaturas, pois está no nível da criação, sobre a qual Ele exerce autoridade, o pleno direito que tem como Criador de sujeitar todas as coisas à Sua vontade, sendo sempre benigno. Assim, Deus não está sujeito à Lei, visto tê-la criado para os homens, e não para Si (como o Criador pode se sujeitar ao objeto criado?); então, é impossível a Deus pecar, Ele não pode pecar, o pecado não exerce nenhuma influência sobre Deus (negativamente) que, como Juiz, pune o pecador (reação positiva contra a rebeldia), o qual é quem efetivamente comete o pecado, e sobre quem está a autoridade justa e santa de Deus.

Mas muitos dirão: "E a ira de Deus, é boa?". Para Deus (e devia ser para nós também), tudo o que Ele faz é e sempre será, em todas as situações, santo, perfeito e bom. Porque tanto a santidade, como a perfeição e a bondade têm em Deus o seu padrão único, não apenas máximo, mas singular. A ira de Deus é boa porque faz parte da Sua natureza, e por ela conhecemos a Sua justiça. Veja bem, se Deus não tivesse criado o pecado e o mal, como seria possível que conhecêssemos a Sua santidade e retidão, e assim pudesse manifestar a Sua ira? Sem o mal criado seria possível ver o bem em Deus? Sem o pecado criado seria possível reconhecê-lO santo e imaculado, e por ele manifestar a Sua equidade? Não. A menos que Deus criasse uma outra criatura que não fosse o homem. Então, por que escolheu criar o homem? Por que assim Ele quis, e ponto. A revelação bíblica não pode ser questionada quanto mais Deus; como Paulo deixou patente, inapelável: "Ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?" (Rm 9.20). É preciso dizer mais alguma coisa?

Jó entendeu que a sua condição diante de Deus, como criatura, o tornava integralmente submisso à Sua autoridade e vontade, e de que devia render-se em completa humildade, e assumir a sua inferioridade face ao Deus sábio e bom. Por isso o texto anuncia que, decisivamente, ele em tudo não pecou. Qual era o seu pecado possível? Contestar a vontade divina. Contestar os atos divinos. Contestar a sabedoria de Deus. E como muitos fazem, contestar a soberania de Deus sobre tudo e todos. Esses são pecados, porque ofendem o Ser de Deus, a Sua natureza, pela falta de fé, e a desconfiança de que Ele é capaz de decidir justamente.

Murmurar é, nada mais nada menos, o queixar-se de Deus, é considerar os Seus propósitos falhos, imperfeitos, injustos, e de que, em nossa soberba, podemos fazer melhor do que Ele faz. Jó poderia ter murmurado, porém não teve o mesmo pensamento que derrubou satanás e 1/3 dos anjos do céu; que levou Adão e Eva ao pecado; e que destruirá a cada um dos rebeldes que se atrever a intentá-lo.

Jó não pecou, porque assim Deus quis que agisse.

Portanto, mesmo rasgando suas vestes, rapando a cabeça, pranteando, e sofrendo como poucos, não atribuiu "a Deus falta alguma" (v.22).

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sábado, 2 de maio de 2009

COMENTÁRIO A JÓ 1.13:22 - PARTE 1




















Por Jorge Fernandes


Após satanás sair, não sabemos precisamente quanto tempo decorreu até os acontecimentos que se seguem. O início do verso 13, “E sucedeu um dia...”, não traz nenhum indicativo de quando o diabo começou a agir. A idéia que temos é de que não foi algo imediato, logo após Deus autorizá-lo a tocar em Jó. Talvez algumas semanas ou meses depois. O certo é que os filhos de Jó estavam novamente se regalando na comida e no vinho. Parece-me que eles não faziam outra coisa a não ser festejar a riqueza que o pai lhes proporcionava, a opulência em que viviam, sem sequer agradecer a Deus pelas dádivas de que dispunham. Isso é um fato, visto que a única referência do texto a eles é quanto à freqüência com que se esbaldavam, e mais nada.
Àquela época, como hoje, os homens priorizavam os prazeres e desejos da carne, o deleite individual mesmo numa aparente confraternização, o que poderia nos remeter a uma espécie de comunhão, mas que normalmente não passava de exibição, ainda que dissimulada pelo compartilhar algo com elas... A vida atual é a repetição da vida antiga... Há uma busca desenfreada pela diversão, como se fosse possível alegrar-se apenas na volúpia. A distração leva o homem ao esquecimento de si mesmo, do que é, e de Deus. Por isso as pessoas sofrem no cotidiano, sentem-se massacradas pela
máquina, oprimidas, mas a verdade é outra: o desejo de viver uma constante brincadeira irresponsável e alienada faz com que a realidade seja dolorosa e somente suportada, porque é algo indesejado que não se consegue evitar.
Isso nos remete ao Éden, quando Adão, insatisfeito com tudo o que Deus lhe dera (não necessariamente insatisfeito, mas não satisfeito completamente), desejou em seu coração ser como Deus (Gn 3.5). Então o descontentamento é o resultado da rebeldia do homem contra o Criador e Seus desígnios, os quais o mortal rejeita; e vê como única forma de aplacar a insatisfação o regalar-se no pecado. É como se dissesse: “Deus, você me quer infeliz, porque não consigo ser feliz do Seu jeito, mas eu provo que posso ser feliz à minha maneira”.

E a convivência com o próximo é, na maioria das vezes, o prazer de afrontá-lo com o nosso prazer, jogar na sua cara que somos felizes ao ponto em que ele jamais o será (uma competição inútil, frívola). Então o prazer não está mais no íntimo, é externo, e se acomoda na antessala do individualismo, quando os olhares do mundo estão postos em nós. Por isso, desde Adão, o mundo decresce aos níveis mais baixos de imoralidade, onde o amor não tem lugar na sociedade e, mesmo na igreja, parece esquecido ou pelo menos adormecido.

Quantos deuses cultuam-se no mundo atual? O consumismo, adrenalina, sexismo, drogas, narcisismo, mentiras, e os vários níveis de compulsão relacionados a eles, e suas variantes, os quais dão uma momentânea felicidade enquanto exercitados; e a expectação de repeti-los uma próxima vez é a tábua de salvação do dia a dia. O que nos faz escravos da esperança fugidia e irrealizável...
Não há como duvidar da influência de satanás no mundo. Quando falamos do mal, ele é a sua forma e essência, a face oculta do pecado (mas ao mesmo tempo visível pela revelação bíblica). Portanto, não é de se admirar que não ouvimos os filhos de Jó a orar, sacrificar, ou buscar a Deus, mas a banquetearem-se uns com os outros, numa festança sem fim, onde a premissa era ser feliz enquanto fosse possível, enquanto durasse.
O fato de Jó oferecer holocaustos aos filhos (v.5) revela não somente o amor que tem por eles, mas o amor e obediência que tem a Deus; o temor e a reverência que os seus filhos desconheciam, e que nele eram manifestas.
Logo, a obra de satanás tem início na vida de Jó; e numa sequência aterradora, ele é informado quase simultaneamente de que uma tragédia caíra sobre si. Primeiro, são-lhe roubados os bois e jumentas, e os servos mortos pelos sabeus [mercadores africanos, homens de alta estatura (Is 45.14), descendentes de Sebá, neto de Cão (Gm 10.7)]. Apenas um dos servos foi deixado vivo, "para trazer-te a nova" (v. 15).
Jó não teve tempo sequer de absorver o impacto da notícia, pois,
"estando este ainda falando, veio outro" servo (v. 16), e trouxe-lhe a novidade de que o "Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu", restando apenas o informante. Não há dúvida quanto a origem do fogo de Deus, pelo menos, assim creio. Se as outras investidas aos bens de Jó são efetivamente originarias do diabo, neste caso o texto bíblico não é presumível, mas evidente: o fogo que consumiu as ovelhas e os servos proviera do próprio Deus. O mesmo aconteceu no tempo de Elias quando o rei Acazias mandou que três tropas sucessivamente levassem o profeta até ele, que se achava enfermo. As duas primeiras tropas, com o capitão mais cinqüenta homens cada, foram consumidas pelo fogo do céu. "Então o fogo de Deus desceu do céu, e o consumiu a ele e aos seus cinqüenta" (2Rs 1.12). Também, quando Elias se viu confrontado pelos profetas de Baal, Deus fez descer fogo para consumir o holocausto que o profeta apresentara como prova de que apenas o Senhor era Deus, e de que Baal era uma farsa (1Rs 18.22-40). Portanto, não há como duvidar da assertiva de que foi o Senhor quem mandou o fogo que devorou as ovelhas e os servos de Jó.
Não houve tempo para se recuperar. Enquanto era-lhe concluído o relato, outro servo veio, e disse que três tropas dos caldeus* tomaram os seus camelos, e "aos servos feriram ao fio da espada", exceto o que escapou, "para trazer-te a nova" (v.17).
Jó não esperava que mais nenhum desastre fosse acontecer; subitamente ele estava arruinado financeiramente, não lhe restara nada, nenhum bem com o que se sustentar. Talvez tenha pensado nos banquetes dos filhos e se entristecido, porque não teria mais como patrociná-los, afinal era um homem pobre agora... Talvez a sua preocupação fosse de que, mesmo sem bens, seus filhos continuariam pecando, e ele não teria nenhum sacrifício a oferecer a Deus, a fim de santificá-los... Talvez se questionasse: "Por que eu?". Não era ele um homem justo, temente a Deus?... Talvez, enquanto eram-lhe relatados os infortúnios, elevou a Deus uma rápida oração... Talvez não houve tempo para pensar em nada, apenas derramar-se interiormente abatido...
Mas eis que ainda quando o último falava, chegou novo servo, dizendo-lhe: "Estando teus filhos e tuas filhas comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito, eis que um grande vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, que caiu sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova". Em questão de minutos, Jó havia perdido tudo o que tinha na vida; não possuía bens, nem servos, nem filhos (não seria a morte dos filhos o julgamento de Deus sobre eles?). Era um homem arruinado e afligido. É difícil imaginar o que se passava em sua mente, ainda que façamos uma idéia. Cabe uma pergunta: Em lugar de Jó, como nos portaríamos?
É interessante como um simples escorregão, o esbarrão de um transeunte, o atraso do ônibus, o pneu vazio, ou qualquer outra coisa insignificante, pode nos trazer tanto desgosto e frustração. Diariamente somos submetidos a pequenas adversidades e, normalmente, as tratamos com impaciência, raiva, sem fé. Imagine que Jó tinha uma vida abastada, era um homem próspero e instantaneamente se tornou num miserável. Seríamos capazes de suportar um baque tão grande? Será que temos buscado e conhecido a Deus o suficiente para não odiá-lO, caso estivéssemos no lugar de Jó? Ou blasfemar e murmurar?
Em minutos, ele teve de aprender o que o apóstolo Paulo também aprendeu, nos ensinou, e teimamos em não entender: "... também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios" (Rm 5.3-6).
Como é grandiosa a certeza de que Cristo morreu por nós quando éramos completa e absolutamente rebeldes, iníquos e opositores a Ele. Ainda assim, não fez causa da nossa perversão, e nos perdoou, ao morrer na cruz e derramar o Seu sangue "para remissão dos pecados" (Mt 26.28). Pelo Seu muito amor com que nos amou, Deus, que é riquíssimo em misericórdia nos vivificou em Cristo (Ef 2.4-5), e temos a esperança de que, naquele dia estaremos diante do nosso Senhor por toda a eternidade, e Ele limpará de nossos olhos "toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas" (Ap 21.4).
Certamente, Jó não teve esse entendimento, não dessa forma, com a completude da revelação que somente foi possível após a vinda do Messias. Mas, de um modo maravilhoso, Deus o amparou em fé, mantendo viva a confiança que ele tinha no seu Senhor, e mais, aumentando-a o equivalente à dor, o que lhe permitiu, diante do sofrimento, suportar todas as perdas, ser confortado em uma viva esperança, porque ela não estava despositada em si mesmo, mas nAquele em que cria, sabendo que era poderoso para guardar o seu depósito até o dia do Senhor (2Tm 1.12).
Assim como Davi, ele provou da misericórdia de Deus, porque
"O Senhor sustenta a todos os que caem, e levanta a todos os abatidos" (Sl 145.14).

*
Os caldeus (hebr. kasdim) foram um grupo de tribos que viviam ao sul da Babilônia. No AT há várias citações sobre eles que, sob o camando de Nabucodonosor destruiu Jerusalém, e levou o povo judeu para o cativeiro babilônico por 70 anos. Os caldeus foram derrotados pelos persas, e a Babilônia dominada por Ciro, que ordenou a reconstrução de Jerusalém, por Neemias.

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

SUSTENTO PASTORAL & O CORPO LOCAL























Por Jorge Fernandes


Escrevi acerca do dízimo e ofertas há um ano aproximadamente (leia o post aqui). Retorno ao tema para nova abordagem do assunto, agora sobre a biblicidade do sustento pastoral (parcialmente examinado no mesmo post). Muitos, de cara, torcerão o nariz, mas peço-lhe que orem, despojem-se de seus preconceitos, terminem de ler o texto, e tirem suas conclusões. E que o bom Deus nos abençoe.
Primeiro, um esclarecimento: Não sou pastor, seminarista, nem recebo salário da igreja da qual sou membro.
Segundo, muitos dirão: "Veja quantos pastores profissionais existem, que sugam tudo o que podem dos fiéis, extorquindo-os com falsas promessas de bênçãos enquanto se empanturram de dinheiro, gastando-o da forma mais mundana possível, em bens materiais e suntuosidade". Reconheço, é verdade. Há muitos líderes que "vendem" o Evangelho, tratando-o não menos que um produto rentável. Mas isso representa dizer que todos são mercenários? Que estão buscando o que lhes é próprio ao invés da glória de Deus? Não! E a despeito de todos os falsos mestres (os quais estão sob a ira de Deus), a Bíblia exorta a igreja a suprir as necessidades dos que pregam a palavra.

Terceiro, nossa igreja é pequena e de poucos recursos; auxiliamos o nosso pastor em seu sustento, contudo, ele trabalha secularmente seis dias por semana, 10 horas por dia, para suprir as necessidades de sua família. E percebo que se ele fosse um pastor de tempo integral dedicado à igreja, tanto os membros como os trabalhos evangelísticos seriam fortalecidos.
Quarto, não quero generalizar, mas, normalmente, os que atacam o sustento pastoral são aqueles que se acham dignos de serem crentes, desde que não tenham de sacrificar nenhuma parte dos seus bens. De certa forma, o que move os "mercadores da fé" é o mesmo que os move: a avareza, o amor ao dinheiro.
Quinto, há os que tentam espiritualizar o que não é espiritual. O Evangelho de Cristo é espiritual, porém, proclamado fisicamente pelo pregador, pela impressão de Bíblias (por mãos incrédulas, muitas vezes), em suma: por meios humanos. Tentar provar que a pregação do Evangelho não é trabalho (seja remunerado ou não) é contradizer o próprio tratamento dado à questão por Jesus (Jo 4.38, 5.17), e Paulo (1Co 3.8, 15.58; Cl 1.29; Hb 6.10).

Feito os esclarecimentos, analisemos alguns versículos que tratam do assunto:

1)
"Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta o gado e não se alimenta do leite do gado?" (1Co 9.7).
O que o apóstolo está dizendo? Aqueles que pregam o Evangelho que vivam do Evangelho (1Co 9.14). Paulo reinvindica o direito de ser sustentado em seu ministério pela igreja. Como afirma:
"Ou só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?" (1Co 9.6). Provavelmente os coríntios acusavam Paulo de "mercadejar" o Evangelho, de procurar o benefício próprio, de pregar o Evangelho por motivos mundanos. Porém, revela-lhes que tanto ele como os demais apóstolos têm o direito de terem o sustento para si e suas famílias, e de que essa responsabilidade cabe à igreja (1Co 9.4-5). Não é o que parece ao afirmar "Esta é minha defesa para com os que me condenam" (1Co 9.3)? E "Digo eu isto segundo os homens?" (1Co 9.8). Ao que arremata: "Ou não diz a lei também o mesmo?" (1Co 9.8).
Paulo prossegue a argumentação protestando que, aquele que lavra e debulha (ou seja, aquele que trabalha), lavra e debulha com esperança de ser participante (1Co 9.10). E continua:
"Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito que de vós recolhamos as carnais?" (1Co 9.11). O apóstolo declara que esperava colher muito menos dos coríntios do que lhes tinha dado, mas ainda assim, esperava obter o necessário para a sua subsistência.
A sequência à qual Paulo expõe o seu pensamento é extremamente lógica, e impossível de não entendê-la, a menos que seja lida com premissas falhas. É o que muitos dirão, justificando-o com o v. 12:
"Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo" (grifo meu).
Atentamos que o verso fala de um "direito" que o apóstolo possuía, o qual era o de ser mantido pela igreja. Porém, diante das dúvidas levantadas pelos coríntios, e da própria resistência da igreja em ajudá-lo, ele não "usou" esse direito, para que a descrença dos coríntios não aumentasse, e fosse "impedimento" para a proclamação do Evangelho. Dizer que Paulo censurou os ministros que são sustentados pela igreja é distorcer completamente o sentido daquilo que ele próprio diz.
Resumindo: Paulo não pregava o Evangelho por causa das recompensas, por aquilo que a igreja iria lhe dar; ele pregava o Evangelho por amor a Cristo e aos eleitos (2Tm 2.10), contudo, esperava que, como igreja, os irmãos suprissem as suas necessidades.

2)
"Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado" (2Co 11.8).
Qual de nós, vendo o irmão em necessidade, vira-lhe as costas? Foi o que os coríntios fizeram em relação a Paulo. E ele os exorta com tristeza, sabendo que negligenciaram o seu compromisso para consigo; porém com o nítido objetivo de não somente apontar-lhes o erro, mas de levá-los ao arrependimento e correção. Senão, por que tocar no assunto?
Há quem entenda que Paulo está condenando os que recebem salário, como alguém que é "pesado" à igreja, um usurpador (ao contrário, o que ele diz dos coríntios é que suas atitudes eram usurpadoras, eles é que "roubavam" dos macedônios ao receber o Evangelho de graça, sem nenhum sacrifício).
É claro que há casos e casos. Aqueles que se utilizam da posição de liderança no ministério para o enriquecimento, a abastância material, o deleite carnal, o consumismo desenfreado, e o apego sórdido ao dinheiro (seja pastor ou não) comete pecado, e é injusto. Em outras palavras, quem age assim sequer é convertido. Porém, o fato de muitos agirem desta forma (e, infelizmente, parece que o pastoreio se tornou num novo "toque de Midas" o qual transforma tudo o que põe a mão em ouro), não representa que o princípio da subsistência ministerial seja antibíblico.

Novamente, Paulo escreve aos coríntios dando-lhes "um puxão de orelhas", entre outras coisas dizendo que eles deveriam agir e viver como igreja. Havia muita divisão entre eles, muito sectarismo; e para a sua tristeza, especialmente por que plantara a igreja, eles o desprezavam em detrimento aos falsos apóstolos (2Co 11.1215) os quais, certamente, eram os que o caluniavam junto ao povo.
Ele defende-se de que, em nada é menor do que os demais apóstolos e, portanto, tem o mesmo direito que os demais tinham, inclusive o de viajar com sua família, como Pedro fazia (2Co 11.5). Mesmo solteiro, Paulo reivindica esse direito, o de constituir uma família e poder viajar com ela no seu ministério.
Temos de entender que o fato de Paulo pregar de graça aos coríntios, e os coríntios o receberem sem se preocupar com as suas necessidades, é motivo de glória para o apóstolo e de "desglória" para a igreja de Corínto, ainda que isso não os impediu de serem abençoados pela pregação do Evangelho. É o que ele diz:
"Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?" (v. 7).
À frente, no capítulo 12, vem-nos a confirmação:
"Pois, em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, a não ser que eu mesmo vos não fui pesado? Perdoai-me este agravo... Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado" (2Co 12.13,15 - grifo meu). Parece-me que Paulo coloca os coríntios em pé de igualdade com as demais igrejas, a não ser pelo fato dele não ter sido "pesado" a ela. Em outras palavras, os coríntios estavam numa posição "inferior", em débito, por não terem com essa beneficência demonstrado "amor" ao apóstolo. É assim que Paulo os retrata: enquanto o seu amor por eles aumentava a ponto dele se sacrificar para pregar-lhes o Evangelho (o que implica em passar necessidades), a igreja de Corinto não se dispunha a auxiliá-lo em seu sustento, como prova de amor.
No fim das contas, o que importa é isso: o amor a Cristo e Seu Evangelho, o que resulta em obediência.

Apêndice
: De certa forma, o mesmo sectarismo que Paulo aponta entre os coríntios, vemo-lo hoje. A Igreja está tão dividida, inclusive pelos que pregam unidade, pelos sem "placas" nem "nomes", pelos que se julgam filhos "exclusivos" de Deus, pelos que se consideram "libertos" mas estão presos ao pior farisaísmo existente, e acabam por se esquecer do principal: pregar o Evangelho de Cristo crucificado (1Co 2.2).
Perdemos tempo com "outros" evangelhos, e negligenciamos o que realmente importa. Com isso, não quero jogar para "debaixo do tapete" os problemas da igreja, muito menos pregar o evangelho ecumênico. Longe de mim cometer estes pecados. Mas, se ao invés de gastar o precioso tempo de que dispomos tentando "corrigir" os erros de outras igrejas e denominações, preocupássemos conosco, nossos irmãos e igreja certamente estaríamos "salvando" a nós mesmos e aos nossos queridos... Um minuto! Não confunda uma frase hiperbólica com salvação de verdade, a qual apenas o nosso Senhor Jesus Cristo é capaz de realizar. Quero dizer é que, nos preocupamos em "salvar" os outros (pelo menos nos enganamos com essa idéia), quando na verdade o nosso objetivo é "revelar" o quanto estão errados e desviados do caminho; e assim nós mesmos acabamos nos desviando do caminho, substituindo o amor pelo legalismo, a mera acusação, e a autoexaltação. E, por favor, não confundam essa declaração com a condenação à disciplina bíblica, pois a disciplina é atributo da igreja, do corpo local, e não de irmãos isolados que falam por si só, como se fossem a própria voz de Deus (estes, se forem eleitos, são alvos da disciplina divina).
Deus levantará segundo a Sua santa vontade irmãos que farão o trabalho apologético, defendendo a fé bíblica apontando o erro daqueles que são antievangelho, e mesmo dos cristãos que "deslizaram" em um princípio ou outro. Mas, infelizmente, o que acontece é que, de uma hora para a outra, a maioria se arrogou e arvorou apologista, e saiu "atirando" para todos os lados, como uma metralhadora descontrolada.
Enquanto isso, sorrateiramente, o diabo planta dentro do corpo local suas heresias, mas como nossos olhos estão voltados para os erros alheios (de outras denominações e outros irmãos denominacionais, cuja disciplina não está ao nosso alcance), permitimos que a nossa omissão e desleixo corrompa-nos também.
O pior é que muitos nem sequer participam do corpo local, acreditando num cristianismo solitário e individualista, numa clara rebeldia aos princípios bíblicos que dizem defender. No fundo, se consideram
superiores e melhores do que os mandamentos de Cristo; e sentam-se confortavelmente em suas torres de observação, desprezando-a, ridicularizando-a, pois sequer passa-lhes pela cabeça submeter-se à autoridade com que o Senhor investiu-a.
São "livres" para bater à vontade, contudo, esquecem-se de que, caso sejam eleitos, a mão disciplinadora de Deus está sobre eles. Se não forem, não há disciplina, mas a condenção eterna os aguarda.
A melhor forma de se pregar o Evangelho de Cristo é pregando o Evangelho de Cristo, e não combatendo o antievangelho. Qualquer um pode combater (pois nem mesmo argumentos precisa-se ter, apenas vontade, disposição), mas poucos são capacitados a viver o Evangelho, pois para isso é preciso ser convertido por Cristo, regenerado e lavado no Seu sangue.
A melhor forma de se lutar contra a fraude e a heresia é expondo a verdade bíblica. De nada adianta refutar a heresia se não se obedece aos mandamentos do Senhor, e assim fazendo-o, demonstra não amá-lO (Jo 14.15) e,
"em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens" (Mc 7.7).
Portanto, é urgente que antes de se entrar numa "caça às bruxas", que se viva o Evangelho, testemunhando a Cristo nosso Senhor.
Fim do apêndice.
Finalizando, transcrevo mais uma vez as palavras do apóstolo Paulo:
"Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário" (1Tm 5.17-18); porque "se alguém também milita, não é coroado se não militar legitimamente. O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos. Considera o que digo, e o Senhor te dê entendimento em tudo" (2Tm 2.5-7).
Timóteo ouviu.
E nós?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

PECADO: RELUTANTE E VULGAR




Por Jorge Fernandes

"Então disse Deus a Balaão: Não irás com eles, nem maldiçoarás a este povo, porquanto é bendito" (Nm 22.12)

Todos conhecem a história de Balaão. Eu mesmo li-a por três ou quatro vezes, e sempre me encucava o porque do "pobre" profeta ser tão tripudiado por alguns pastores e teólogos. Ao revisar o texto bíblico, parecia-me que além de profeta ele era um homem temente e que obedecia a Deus em tudo. Então, não entendia porque Pedro e Judas, por exemplo, pintavam-no como maldito. Era-me um enigma.
Esta semana, deparei-me novamente com Balaão e Balaque. E mais uma vez, me vi questionando a sua má reputação sem entendê-la, e sem que fizesse sentido tanta aversão ao "adivinho" (a alcunha utilizada em Js 13.22 já é suficiente para justificar a sua má fama). Sabia que havia uma razão para a Bíblia abominá-lo, e de que não poderia existir nenhuma contradição entre as várias passagens que o reputavam como impostor, um falso profeta, em contraste com o texto de Números, no qual via uma aparente obediência. Antes sabia que a minha falta de entendimento era evidente, e o problema estava aí.
Desta vez não interrompi a investigação, orei e procurei o auxílio de um irmão e amigo da igreja*, antes do culto de domingo à noite, e relemos Números 22, 23 e 24. Como disse, sabia que o problema não era com a Escritura mas comigo, e não conseguia perceber onde estava o meu erro. Balaão me parecia espiritual e sincero quando dizia: "Ainda que Balaque me desse a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não poderia ir além da ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa pequena ou grande" (Nm 22.18); e obediente quando Deus mandou-o ir com os moabitas, e ele foi (Nm 22.20-21; 35). Queria vê-lo como um profeta divino; e o próprio Senhor parecia querer me confundir, pois falava por meio dele, dirigindo-se pessoalmente (Nm 23.5; 18-24; 24.4-9). Então, o que havia de errado com Balaão? Ou comigo?
Abre parênteses: A interpretação bíblica pode ser influenciada por falsas premissas